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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Um poema de Diogo Vaz Pinto


«O esperar de certos seres
      e de certas horas
que a sua juventude lhe seja devolvida»
  Julien Gracq, A costa das Sistes 

"Tive o tempo que quis e mais algum
para me tornar sério. Não fui por aí.
A família tinha a sua conta, e eu
sempre me fodi com números. Nunca
me deu para fechar linhas, ser firme,
ou manter a formação. Gosto de variar
a continência. Olhei muito em volta,
tudo piscava um olho. Não sei
governar-me, não sei com quantos
paus (...) nem sei fazer-me à vida,
antes faço que não é comigo. Mas sei
o que é amanhecer. Tenho colecções 
sem importância nenhuma, frágeis,
simples. O tinir da primeira luz
nos galhos, logo a gritaria dos pássaros
cavando a alvorada em roucas rajadas.
Uma aragem presa absorvendo
o aroma sumarento e entontecedor
de uns frutos caídos. A moleza e essa
sombra que me caiu às costas escorregando
de outro mundo"

in Bastardo, Averno, 2012

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O extremo exercício de cansaço - Diogo Vaz Pinto


Li ontem a entrevista que o Herberto deu à Caras
onde, além de uns cremes de rejuvenescimento,
recomendava um produto para a queda de cabelo.
Fui comprá-lo esta tarde e sentei-me num café
a ler o folheto informativo – as contra-indicações
e possíveis efeitos secundários.

Experimenta-se tudo, desde a primária rima
e versos que trazemos da escola, até à parafernália
surrealista ou a perfuração de beleza que vem
incendiar a língua portuguesa, elevando e destruindo casas,
fazendo abrigos temporários para a saliva das horas
fundas e mais escuras onde nascemos e desaparecemos
sucessivamente, gravando com as unhas contra a parede
as memórias que criámos para os homens todos
que podíamos vir a ser.

Mas deixando-me agora de águas em que não tenho pé,
retomo o meu pequeno charco: minutos mais certos
e plausíveis, sem grande voz ou talento para cantar
aos ouvidos do futuro.

Já chove a sério lá fora, e nós aqui, noutro serão
demolhado, a comermos hambúrgueres
e a combatermos por um orgasmo
no intervalo do CSI Miami. (Que série tão
estúpida.) Espero que não leves a mal,
digamos que o romantismo no fim se reduz
a pouco mais que isto: uma flor degenerada de vez
em quando, a eventual partilha de leituras ou apenas
a rapidez com que atingimos o ponto de rebuçado
para nos desmancharmos nas margens
de um coração recidivo, vestígio animal
que só o tempo poderá domesticar.

Um dia ainda vou dar-te filhos, se é mesmo
isso o que tu queres – eu já estou por tudo. O mundo
ganha-nos todos os dias, infiltra-se no sangue
e nos espelhos da casa, cose-nos a sombra a prazos,
recados e listas de compras, estraga a nossa vontade
e dá-a a telenovelas e programas de rádio no caminho
para um trabalho que diz tudo sobre o que
não atingimos. Talvez mais tarde nos ataque o arrependimento
e lamentemos não termos perdido tudo ainda jovens,
com uma morte infantil numa brincadeira qualquer,
a dançar com algum sonho ou fugindo para muito longe
com outro alguém.

Diogo Vaz Pinto, Nervo. Averno, 2011