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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Regras

o homem corre em direcção à mulher num último esforço para a alcançar, enquanto um outro grupo de homens o persegue. ele corre com todas as suas forças tentando desesperadamente fugir para abraçar a mulher. a mulher chora e, entre soluços, chama pelo seu nome. os homens apontam as pistolas, mas falham o alvo. alguns chegam a hesitar o disparo: as balas já são tão poucas.
ao correr em desespero o homem perde um dos sapatos, tropeça, cai e volta a levantar-se rapidamente, com uma agilidade que não conhecia em si próprio. depois de muito esforço consegue, finalmente, chegar à mulher que o abraça com toda a força do mundo. ele beija-a. um tiro ecoa ao longo da rua. um dos homens mantém a expressão dura, o fumo da pistola a serpentear-lhe por entre os olhos. manteve-se assim durante algum tempo antes de dar um segundo tiro. afinal de contas a guerra tem regras. 

de José Duarte, 'Regras', de Heartbreak Hotel, a sair um dia destes.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A Radically Condensed History of Postindustrial Life - David Foster Wallace


When they were introduced, he made a witticism, hoping to be liked. She laughed extremely hard, hoping to be liked. Then each drove home alone, staring straight ahead, with the very same twist to their faces.
The man who'd introduced them didn't much like either of them, though he acted as if he did, anxious as he was to preserve good relations at all times. One never knew, after all, now did one now did one now did one.

David Foster Wallace, Brief Interviews with Hideous Men, Abacus, 2001

quinta-feira, 29 de março de 2012

O Polícia

Estava sentado numa pequena cadeira, junto ao balcão do café. Bebia um copo ou outro, porque tinha acabado de sair do serviço. Era apenas para relaxar. O empregado do café permanecia de pé à espera de clientes. A sala principal era um local pouco iluminado, mas arrumadinho. Ao fundo dessa sala uma televisão passava um jogo de futebol. De vez em quando o homem virava a cara, concentrava-se e tentava saber qual o resultado.

O outro homem sentou-se ao lado do primeiro homem. O primeiro homem, de vez em quando, levantava o chapéu e coçava a cabeça, em sinal de aborrecimento. O segundo homem, depois de pedir um copo para aliviar a tensão, reparou no esforço do primeiro homem sempre que tentava ver o resultado do futebol. Estranhando a falta de visão do homem perguntou-lhe como fazia quando era para apanhar ladrões, uma vez que não via muito bem. O polícia respondeu-lhe que, na maior parte das vezes, fechava os olhos. Não porque era mais fácil, mas porque se sentia muito cansado.


De Tudo o que acontece

(José Duarte)

Saúde Pública

O homem olhou desconfiado, arqueou a sobrancelha, e depois de algum espanto, fingiu-se desinteressado, embora não conseguisse tirar os olhos do objecto. O outro homem tinha nas suas mãos um pequeno tubo no qual estava um líquido. Apontava o tubo para a luz e sorria. Dizia que com aquela vacina, finalmente, poderiam salvar os animais dos homens e, enfim, tornar o mundo um lugar mais arrumado. O primeiro homem olhou para o segundo e perguntou: - Tem a certeza disso, Herr Doctor?


De Tudo o que acontece

(José Duarte)