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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Of Mutability - Jo Shapcott


Too many of the best cells in my body
are itching, feeling jagged, turning raw
in this spring chill. It’s two thousand and four
and I don’t know a soul who doesn’t feel small
among the numbers. Razor small.

Look down these days to see your feet
mistrust the pavement and your blood tests
turn the doctor’s expression grave.
Look up to catch eclipses, gold leaf, comets,
angels, chandeliers, out of the corner of your eye,
join them if you like, learn astrophysics, or
learn folksong, human sacrifice, mortality,
flying, fishing, sex without touching much.
Don’t trouble, though, to head anywhere but the sky.

Of Mutability, faber & faber, 2011.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Bucólico en plural por momentos mayestático

No nos está permitido perder el tiempo. Vamos de un lado a otro y aun de 
la inactividad procuramos extraer provecho y conclusiones. Cuando no 
producimos nada concreto nos engañamos con el placebo de la 
“experiencia”, que se produce a sí misma: máquina hermosa y 
autosuficiente que habría deleitado a Leonardo. Cuando temblamos por la 
resaca y vomitamos en la regadera y pasamos la mañana espantando el 
fantasma de la derrota con abluciones y café y lecturas clásicas decimos 
que la experiencia es un pájaro negro encerrado en el cuarto. Y 
entendemos que está bien que así sea, porque es jueves, y es verano, y 
todos los errores que hemos cometido para llegar hasta aquí son finalmente 
nuestros –hijos rosados en la primera infancia que juegan futbol en los 
callejones, en  las plazoletas vacías de la cabeza–. Cuando nos sentamos 
como exánimes en el filo del ocio y nos sentimos nimbados por el miedo a la 
muerte como un Cristo Pantocrátor en anfetaminas decimos que el envés 
plateado de las hojas en el parque de enfrente es un saludo modesto que 
nos dirigen las cosas invisibles, y lo aceptamos porque es jueves, y es 
verano, y hace tiempo que no nos permitíamos rompimientos de gloria 
completamente disociados de las producciones culturales al uso. Y a veces 
está bien que lo hagamos. Que perdamos el tiempo, quiero decir; que 
abracemos el pánico como a un padre marchito. Porque es jueves, y es 
verano, y las horas se acaban más pronto que tarde. ~

Daniel Saldaña París. Mais informação, aqui.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Anne Sexton - The Room of My Life


Here,
in the room of my life
the objects keep changing.
Ashtrays to cry into,
the suffering brother of the wood walls,
the forty-eight keys of the typewriter
each an eyeball that is never shut,
the books, each a contestant in a beauty contest,   
the black chair, a dog coffin made of Naugahyde,   
the sockets on the wall
waiting like a cave of bees,
the gold rug
a conversation of heels and toes,
the fireplace
a knife waiting for someone to pick it up,
the sofa, exhausted with the exertion of a whore,   
the phone
two flowers taking root in its crotch,
the doors
opening and closing like sea clams,
the lights
poking at me,
lighting up both the soil and the laugh.
The windows,
the starving windows
that drive the trees like nails into my heart.   
Each day I feed the world out there
although birds explode
right and left.
I feed the world in here too,
offering the desk puppy biscuits.
However, nothing is just what it seems to be.   
My objects dream and wear new costumes,
compelled to, it seems, by all the words in my hands   
and the sea that bangs in my throat.

Anne Sexton - 'The Room of My Life', from The Complete Poems of Anne Sexton (Boston: Houghton Mifflin, 1981)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Cidade Líquida - Filipa Leal


A cidade movia-se como um barco. Não. Talvez o chão se abrisse em algum lado. Não. Era a tontura. A despedida. Não. A cidade talvez fosse de água. Como sobreviver a uma cidade líquida?
(Eu tentava sustentar-me como um barco.)
As aves molhavam-se contra as torres. Tudo evaporava: os sinos, os relógios, os gatos, o solo. Apodreciam os cabelos, o olhar. Havia peixes imóveis na soleira das portas. Sólidos mastros que seguravam as paredes das coisas. Os marinheiros invadiam as tabernas. Riam alto do alto dos navios. Rompiam a entrada dos lugares. As pessoas pescavam dentro de casa. Dormiam em plataformas finíssimas, como jangadas. A náusea e o frio arroxeavam-lhes os lábios. Não viam. Amavam depressa ao entardecer. Era o medo da morte. A cidade parecia de cristal. Movia-se com as marés. Era um espelho de outras cidades costeiras. Quando se aproximava, inundava os edifícios, as ruas. Acrescentava-se ao mundo. Naufragava-o. Os habitantes que a viam aproximar-se ficavam perplexos a olhá-la, a olhar-se. Morriam de vaidade e de falta de ar. Os que eram arrastados agarravam-se ao que restava do interior das casas. Sentiam-se culpados. Temiam o castigo. Tantas vezes desejaram soltar as cordas da cidade. Agora partiam com ela dentro de uma cidade líquida.
(Eu ficara exactamente no lugar de onde saiu.)

Filipa Leal, A Cidade Líquida e Outras Histórias, 2006

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Já gástamos as palavras, meu amor - Eugénio de Andrade

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.



Eugénio de Andrade, in Poesia e Prosa

segunda-feira, 25 de junho de 2012

White Nights - Paul Auster




No one here,
and the body says: whatever is said
is not to be said. But no one
is a body as well, and what the body says
is heard by no one
but you.


Snowfall and night. The repetition
of a murder
among the trees. The pen
moves across the earth: it no longer knows
what will happen, and the hand that holds it
has disappeared.


Nevertheless, it writes.
It writes: in the beginning,
among the trees, a body came walking
from the night. It writes:
the body’s whiteness
is the color of earth. It is earth,
and the earth writes: everything
is the color of silence.


I am no longer here. I have never said
what you say
I have said. And yet, the body is a place
where nothing dies. And each night,
from the silence of the trees, you know
that my voice
comes walking toward you.

Paul Auster, Disappearances: Selected Poems (1988)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Elogio da Solidão - José Alberto Oliveira

Uma casa para estrear e descobrir
em quantas salas se acomoda a solidão.
Cozinhou o jantar e come atentamente
como todos quantos dividem a comida em silêncio:
o náufrago, o mendigo, o oleiro na lancheira.

Coze o seu barro, um jeito de partir o pão
que deve ao tempo uma lentidão coalhada.
O ruído do vizinho não o incomoda.
Nenhuma fala ou resíduo humano leveda
uma página ao acaso. Pode decidir beber mais vinho
ou inaugurar a leitura de outro livro.
Mesmo sair para beber café e mastigar o frio.

No pasto, a chuva rega a placidez do boi;
abana a cabeça, fumegam as narinas,
desenha-se num fundo de pinhal que o vento
castiga; na caruma molhada pressente-se
o rumor de um cão absorto na ilusão
do que procura. Coisas mínimas, irrisórias,
vão salvar o resto da noite de presumir felicidade.

Lá fora a cidade está cercada na convicção
das suas vidas perdoáveis, mercando
um alimento longamente dispensável
- a respiração em vitualhas e sarcasmos,
a pobreza irresignável e irresolúvel,
o cansaço de não estar só e não querer estar.



José Alberto Oliveira
por alguns dias
Assírio & Alvim, 1992


Retirado daqui

quinta-feira, 22 de março de 2012

Um quarto com vista para o Hudson

antes da descida
aos infernos
aluguei um
quarto com vista
para o Hudson

serpenteava ainda
o rio como o sexo
lânguido por entre
as margens do corpo

encostadas, ainda que por breves
momentos, à janela
obedecendo ao movimento
dos barcos que fumegavam
nas águas do porto
empurrando as ondas

partindo com origem
mas sem destino
deixando um rasto
de espuma que
depois se desvanece

a noite parece longa
carrego no botão do elevador
para descer

em desespero
entrego-me à pornografia
dos lugares comuns
e das luzes da cidade
de todas as cores

não há já
caminho que possa percorrer
resta apenas a certa solidão
a sombra exacta do que
guardo no coração

por entre
os dedos
ardendo na boca

Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)

José Duarte


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Margarida Ferra - Curso Intensivo de Jardinagem




Ontem adormeceste, ainda
tínhamos as facas todas na boca
e três por abrir.
Ficou uma pousada
em equilíbrio geométrico
na linha dos lábios.
Não sei de quem eram
esses lábios onde
o gume imóvel não deixava sair
as palavras duras
e, mais tarde, os pesadelos
Outras o cabo na minha mão,
esqueci-a antes da última
costela flutuante
depois do coração.

De manhã éramos só nós, frios,
e a memória das cinzas na rua.

A terceira foi como se nunca tivesse existido.

Margarida Ferra, Curso Intensivo de Jardinagem, & etc, 2010.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Exercício de Ruptura


ela espera-o ansiosamente.

sempre que pode, sonha com ele a entrar em casa,

a mão a abrir a porta, a cumprimentar o cão de loiça,

a abrir os braços em vez de os levantar.

tem uma manta de retalhos que lhe quer oferecer

e que faz e desfaz, dado o nervosismo,

a incerteza de que o produto não é fiel.

trata as fotografias antigas por tu,

como velhas companheiras de viagem e

chora a ausência da sua antiga família.

quando vê filmes, também ela

acha que já foi rainha.

ele é camionista ou imigrante ou sei lá.

de vez em quando telefona-lhe e diz que

em breve estará em casa.

ela ouve sons, a estrada, o asfalto,

às vezes os motéis, quase que tosse de sentir tanta sujidade,

as sirenes, a água a correr.

ela quando pode deita-se e sonha.

aguarda. ele quando se deita sabe que não poderá

regressar.