quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Bucólico en plural por momentos mayestático

No nos está permitido perder el tiempo. Vamos de un lado a otro y aun de 
la inactividad procuramos extraer provecho y conclusiones. Cuando no 
producimos nada concreto nos engañamos con el placebo de la 
“experiencia”, que se produce a sí misma: máquina hermosa y 
autosuficiente que habría deleitado a Leonardo. Cuando temblamos por la 
resaca y vomitamos en la regadera y pasamos la mañana espantando el 
fantasma de la derrota con abluciones y café y lecturas clásicas decimos 
que la experiencia es un pájaro negro encerrado en el cuarto. Y 
entendemos que está bien que así sea, porque es jueves, y es verano, y 
todos los errores que hemos cometido para llegar hasta aquí son finalmente 
nuestros –hijos rosados en la primera infancia que juegan futbol en los 
callejones, en  las plazoletas vacías de la cabeza–. Cuando nos sentamos 
como exánimes en el filo del ocio y nos sentimos nimbados por el miedo a la 
muerte como un Cristo Pantocrátor en anfetaminas decimos que el envés 
plateado de las hojas en el parque de enfrente es un saludo modesto que 
nos dirigen las cosas invisibles, y lo aceptamos porque es jueves, y es 
verano, y hace tiempo que no nos permitíamos rompimientos de gloria 
completamente disociados de las producciones culturales al uso. Y a veces 
está bien que lo hagamos. Que perdamos el tiempo, quiero decir; que 
abracemos el pánico como a un padre marchito. Porque es jueves, y es 
verano, y las horas se acaban más pronto que tarde. ~

Daniel Saldaña París. Mais informação, aqui.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Lisboa


Imagem de Lisboa, Cidade Triste e Alegre de Victor Palla e Costa Martins, inicialmente publicado em fascículos em 1959 e reeditado em 2004, completo. É um livro fabuloso, com imagens excelentes de Lisboa.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Um poema de José Duarte


VI

Atentos ao pregador como um relâmpago
todas as vozes se juntaram para cantar os
uivos da tormenta. Capítulo primeiro:
bem profundos são os abismos da alma
do próprio ventre da baleia.
Sondamos o fundo das águas,
pecadores do
coração empedernido.
Não interessa. É nesta
desobediência que toda
a extensão do mundo
ensaia Sodoma,
enquanto Jonas não reconhecer
um homem honesto com a próxima maré.
O ar circula mal devido
ao peso da alma, cujo sangue
se esvai incessantemente.
O mar revoltou-se por cima
da cabeça de Jonas com
a boca escancarada para engoli-lo.
A lua pálida ilumina tudo em vão.
A baleia cerra os dentes
de marfim.
Apaziguou-se.
Erecto e de olhos fechados ficou
para ouvir dos mais violentos turbilhões.
Ordenou à baleia, com
as orelhas ainda cheias do rumor do oceano,
a verdade, felicidade segura, profunda
e cobriu o rosto com as mãos.

in Dias de Tempestade, 2012, edição de autor. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Um poema de Diogo Vaz Pinto


«O esperar de certos seres
      e de certas horas
que a sua juventude lhe seja devolvida»
  Julien Gracq, A costa das Sistes 

"Tive o tempo que quis e mais algum
para me tornar sério. Não fui por aí.
A família tinha a sua conta, e eu
sempre me fodi com números. Nunca
me deu para fechar linhas, ser firme,
ou manter a formação. Gosto de variar
a continência. Olhei muito em volta,
tudo piscava um olho. Não sei
governar-me, não sei com quantos
paus (...) nem sei fazer-me à vida,
antes faço que não é comigo. Mas sei
o que é amanhecer. Tenho colecções 
sem importância nenhuma, frágeis,
simples. O tinir da primeira luz
nos galhos, logo a gritaria dos pássaros
cavando a alvorada em roucas rajadas.
Uma aragem presa absorvendo
o aroma sumarento e entontecedor
de uns frutos caídos. A moleza e essa
sombra que me caiu às costas escorregando
de outro mundo"

in Bastardo, Averno, 2012