quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Ana Paula Inácio

66-12-ZZ
Como um velho comerciante de carros falido
parecias saído de um filme de Tarantino.
Com as minhas plumas em forma de asas
e a maquilhagem de anjo doente
parecia saída de um filme de Wenders caído.
Relativamente às plumas, em forma de asas,
trazia os cálculos anotados
da distância a manter do Sol
e a imagem de Ícaro em chamas.
Mas naquele dia tudo correu mal.
O que poderíamos fazer de diferentes filmes saídos?
E choveu.
E o nevoeiro nem um cometa deixou ver.
A minha maquilhagem desfez-se,
confundiu-se com os veios das plumas
que se colaram à minha coluna vertebral
como um colete de forças.
E tu velho comerciante
já não me pudeste enganar
e vender um artefacto voador
por um coração ferido
in 2010-2011, Averno, 2011

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Um poema de Maria do Rosário Pedreira


Lê , são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:
livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,
uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por
todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,
eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.
Poesia Reunida, Quetzal, 2012.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Antologia da Moderna Poética Portuguesa




A Seda Publicações lança no dia 2 de março, sábado, pelas 15 horas, no Teatro Rivoli, Porto, Antologia da Moderna Poética Portuguesa. O evento está inserido no conjunto de actividades culturais paralelas ao Fantasporto - Festival Internacional de Cinema do Porto.
Esta antologia, num conjunto de 288 páginas, pretende ser representativa do que de melhor se produz em poesia na actualidade e conta com a participação de 42 poetas, cada qual contribuindo com 4 poemas.
Alberto Pereira, Alice Caetano, Alice Macedo Campos, Ana Bárbara Santo António, Ana Carvalho, Ana Homem de Albergaria, Ana Paula Mabrouk, André Lamas Leite, António Carlos Santos, Armando Moreira, Carla Marques, Catarina Nunes de Almeida, Cristiano Duna, Delfina Antunes, Eduardo Leal, Emílio Miranda, Filipa Leal, Francisco Pipa, Gustavo Brandão Nascimento, Jessica Neves, Joaquim Fernando Fonseca, Jorge Vicente, José Duarte, Luísa Azevedo, Manuela Ferreira, Manuel Capelo, Maria João Cantinho, Maria Nóbrega, Marta Dias, Miguel Braamcamp de Mancellos, Paulo Alexandre Castro, Paulo Assim, Pedro Diamantino, Ricardo Gil Soeiro, Rosa Maria Ribeiro, Rui Fonseca, Rui Miguel Duarte, Rui Tojeira, Rui Vasqueiro, Teresa Almeida, Teresa Brinco de Oliveira e Vicente Ferreira da Silva.

O lançamento em Lisboa está para breve. Mais informação aqui.

Detachment - Belíssimo

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Nos miraba - Um poema de Mario Cuenca Sandoval

“Tienen que decirles lo que nos va a pasar. Despídanse. Pero cuando se despidan, díganselo como si desde el otro lado del teléfono estuvieran agarrando su mano. Háganles saber que si sueltan esa mano, morirán. Debemos avergonzarlos para que nos ayuden”
Del guión de Hotel Rwanda, de TERRY GEORGE


Pero recuerda cómo nos miraba
recuerda aquellos ojos con vocación de hilo
anudándose al cuello de una esperanza idiota
Recuérdalo
el pez se ahogaba dentro de un cajón
sin ayuda de nadie Sus escamas
Sobre ellas brillaba todavía el océano
o los últimos besos del océano
o era que en sus espasmos se encendía la muerte
como el flash de una cámara
Se hundía en el oxígeno Se sumergía
en el escaso aire del cajón entreabierto
Y acuérdate de cómo nos miraba
maldita sea con qué lentitud
con esa lentitud en línea recta
con que algunas verdades nos sacuden
Y nosotros
que aún éramos niños
mirábamos su muerte desde el vientre de un tigre
Protestábamos Ayúdenle Se asfixia
Muerde el aire y ustedes tan parados
Pero debe existir algo así como un túnel
donde enterrar los ojos
un túnel de lavado de todas las conciencias
Ya se verá dijeron
no será que ese pez se ahoga en cualquier parte? Eso dijeron
al tiempo que mi madre nos cerraba el cajón


Mais aqui.