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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Um dia

Al Berto em Sines

[…]
[Cada vez escrevo / produzo menos, mas o pouco que produzo requer tempo. Requer toda a minha disponibilidade, toda a minha paixão. Não posso continuar com coisas exteriores à minha escrita a perturbarem-me. Tenho de avançar rapidamente com o projecto que me obceca há muito. O tempo faz-se escasso.
Faz um frio de partir os ossos. Os dias cheios dum sol espantoso, uma limpidez que se vê a costa até ao Cabo Sardão. Às vezes desejaria ter sido pastor, homem transumante. Ir e regressar, com o sol e com as chuvas, ir e regressar sempre com o ciclo das estações…
Fiz 36 anos, hoje, acabaram-se para sempre algumas coisas, outras iniciam-se agora, só a juventude não se recomeça nem tem início hoje… Tenho de começar a habituar-me à grande desolação dos dias, sempre mais vazios, sem ninguém, porque assim o quis.
A partir de hoje tenho o tempo todo para escrever, para não fazer nada, envelhecerei calmamente. Tenho a certeza. Não há tempo, ainda bem!]

in Diários, Al Berto (11-01-1948 § 13-06-1997), Assírio & Alvim, 2013

Retirado daqui.




quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Foram Breves e Medonhas Noites de Amor - Al Berto

foram breves e medonhas as noites de amor 
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo 
habitado ainda por flutuantes mãos 

estava nu 
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era 
ou como poderia construir a perfeição 

os dias foram-se sumindo cor de chumbo 
na procura incessante doutra amizade 
que lhe prolongasse a vida 

e uma vez acordou 
caminhou lentamente por cima da idade 
tão longe quanto pôde 
onde era possível inventar outra infância 
que não lhe ferisse o coração 


in O Medo, Assírio & Alvim, 2000

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Al Berto na Casa Fernando Pessoa

Al Berto 11/1/1948

Mais Nada se Move em Cima do Papel

mais nada se move em cima do papel

nenhum olho de tinta iridescente pressagia

o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra

e eu

indiferente à sonolência da língua

ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço

no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras

ao nervo onde a boca procura o sul

e os lugares dantes povoados

ah meu amigo

demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas

inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti

com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto, “O Medo”