todos os livros que leio me falam da tua morte
mas não se pode acreditar em tudo o que se lê
e sabendo embora que a tristeza não existe
não posso deixar de me sentar com a cara apoiada numa das mãos
a vida é uma doença de que alguns se curaram
passo os dias sentado num café à distância
e entre mim e mim existe já uma intimidade insuportável
(como dar de novo ouvidos aos meus mestres de outrora?)
fui dos que julgaram ter nascido para tornar grande o mundo
mas atrasei-me de propósito num quarto cheio de homens
- procuro perceber que é o tempo que me cabe -
uma noite fui visto a lançar fogo ao mar
Bernardo Pinto de Almeida. e outros poemas. Quetzal, 2002.
“Books are finite, sexual encounters are finite, but the desire to read and to fuck is infinite; it surpasses our own deaths, our fears, our hopes for peace.” ― Roberto Bolaño
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
domingo, 5 de junho de 2016
Melancolia - Bernardo Pinto de Almeida
Os papéis falam uns com os outros
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
Bernardo Pinto de Almeida. Hotel Spleen. Lisboa: Quetzal, 2003.
Bernardo Pinto de Almeida. Hotel Spleen. Lisboa: Quetzal, 2003.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
O Olhar de Ulisses - Bernardo Pinto de Almeida
À medida que entravam todos os convidados,
dei-me conta de que tu não estavas. Nada
de estranho, vendo bem, pois não sei
porque haveria de supor o contrário. Simplesmente
não entravas nesse filme, não tinhas sido chamada
para o casting, mesmo se, do recinto em volta
onde se juntava muita gente te tinha entrevisto
de repente, a olhar curiosa os salões
iluminados. Não sei que lógica sustentaria
esse não estares, acontecendo ainda assim
à minha volta, nem sei quantos barcos
haverão de naufragar em torno
antes que o mar volte a ser calmo,
acácias voltem a florir, etc. Há uma ilha
adiante, passo por ela, ou antes,
diviso-a na distância, e mesmo se pedi
aos companheiros para me amarrarem ao mastro
do navio, não é menos devastador o abismo
que se abre, já que é abismo pressentir
no sobressalto o regresso cruel do corpo
adolescente. Assim no cinema disso
te pude escutar, enquanto os olhos
cegavam devagar no fogo de contemplar ao longe
um sol que me puxava para si, e os convidados
provavelmente sem entenderem razões
para o seu próprio movimento, como espectros
continuavam a percorrer os corredores
da casa iluminada. E tilintavam cristais e
uma valsa dolente a todos arrastava, enquanto
o meu olhar fugia pelas janelas abertas, e as mãos
sem o saberem procuravam, ainda em desespero,
o que fosse talvez um pedaço de mar,
como se apenas já se soubessem sossegadas
no naufrágio. As mãos eram os olhos
atravessados do fogo. E simplesmente
não estares tornava tudo branco.
Bernardo Pinto de Almeida, in Negócios em Ítaca, 2011, Relógio d'Água.
Bernardo Pinto de Almeida, in Negócios em Ítaca, 2011, Relógio d'Água.
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