com cara de Whitman
foi assim que você pensou que eu viria ao mundo
foi assim que que você me viu na floresta
foi assim que você me viu pendurado no poste elétrico
sempre pendurado num ramo qualquer, sempre usando
o verão.
você se lembra daquele verão no Brooklin
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklin como se nunca
nos houvesse visto antes?
e não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklin.
me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso
foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha
foi assim que você me viu
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. eu também não.
me lembro de você na mercearia
do Brooklyn
você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black n' Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black n’ Decker enfiado no cinto.
foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.
só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não.
Matilde Campilho. Jóquei. Lisboa: Tinta-da-China edições, 2014.
“Books are finite, sexual encounters are finite, but the desire to read and to fuck is infinite; it surpasses our own deaths, our fears, our hopes for peace.” ― Roberto Bolaño
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segunda-feira, 16 de novembro de 2015
quarta-feira, 3 de junho de 2015
Descrição da Cidade de Lisboa - Matilde Campilho
A rapariga a pensar naquilo, a rapariga ao sol, menina a comer cachorro
quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo no olho, do dedo na árvore.
Rapariga de braços levantados, rapariga de pés baixos, rapariga a roer as
unhas, rapariga a ler jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga
no vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapariga solta,
rapariga abraçada, rapariga precisada. Rapariga a fumar charuto, rapariga a ler
Forster, rapariga encostada na palmeira, rapariga a tocar piano. Rapariga
sentada em Mercúrio ao lado de um leão, rapariga a ouvir discurso de Ghandi,
rapariguinha do shopping. Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um
ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida,
rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto
a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que oferece à visão o hábito da
escuridão e depois logo se vê. Rapariga de ossos partidos, rapariga de óculos
negros, rapariga de camisola em poliéster, rapariga debruçada na cadeira da
frente no cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapariga estável, rapariga de
mentira, rapariga a tomar café em copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga
na proa da nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na cara,
rapariga abstémia, rapariga evolucionista. Rapariga de rosto cortado pela faca
de Alfama, rapariga a fugir de compromissos, rapariga a mandar o talhante à
merda, rapariga a assobiar, rapariga meio louca. Rapariga a deslizar manteiga
no pão, rapariga a coçar um cotovelo, rapariga de cabelo azul. Rapariga a
brincar com um isqueiro no bolso, rapariga a brincar com um revólver nas
calças, rapariga a nadar, rapariga molhada, rapariga a pedir uma chance só
mais uma ao santo da cidade. Rapariga a ostentar decote no inverno, rapariga a
olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser homem, rapariga na cama.
Rapariga a subir o volume, rapariga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no
chão. A rapariga a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda
amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina.
Matilde Campilho. Jóquei. Lisboa: Tina da China, 2014.
quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo no olho, do dedo na árvore.
Rapariga de braços levantados, rapariga de pés baixos, rapariga a roer as
unhas, rapariga a ler jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga
no vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapariga solta,
rapariga abraçada, rapariga precisada. Rapariga a fumar charuto, rapariga a ler
Forster, rapariga encostada na palmeira, rapariga a tocar piano. Rapariga
sentada em Mercúrio ao lado de um leão, rapariga a ouvir discurso de Ghandi,
rapariguinha do shopping. Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um
ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida,
rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto
a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que oferece à visão o hábito da
escuridão e depois logo se vê. Rapariga de ossos partidos, rapariga de óculos
negros, rapariga de camisola em poliéster, rapariga debruçada na cadeira da
frente no cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapariga estável, rapariga de
mentira, rapariga a tomar café em copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga
na proa da nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na cara,
rapariga abstémia, rapariga evolucionista. Rapariga de rosto cortado pela faca
de Alfama, rapariga a fugir de compromissos, rapariga a mandar o talhante à
merda, rapariga a assobiar, rapariga meio louca. Rapariga a deslizar manteiga
no pão, rapariga a coçar um cotovelo, rapariga de cabelo azul. Rapariga a
brincar com um isqueiro no bolso, rapariga a brincar com um revólver nas
calças, rapariga a nadar, rapariga molhada, rapariga a pedir uma chance só
mais uma ao santo da cidade. Rapariga a ostentar decote no inverno, rapariga a
olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser homem, rapariga na cama.
Rapariga a subir o volume, rapariga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no
chão. A rapariga a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda
amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina.
Matilde Campilho. Jóquei. Lisboa: Tina da China, 2014.
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