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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Queixas de um Utente - José Miguel Silva

Pago os impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizado sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço 
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta a receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas ser feliz. Seja como for,
não estou a ver o resultado nenhum.

José Miguel Silva. Ulisses Já Não Mora Aqui. Lisboa: Língua Morta, 2013.

domingo, 28 de abril de 2013

Penélope escreve - José Miguel Silva


É mais que certo: não sinto a tua falta.

Fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no Alentejo,
eu debaixo de água. Fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. Sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da Chavela que me deste no Natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
Cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
Por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.

Ulisses já não mora aqui, &etc, 2002