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quinta-feira, 24 de março de 2016

Sobre o silêncio

O silêncio
não é o oposto
mas o avesso

José Tolentino Mendonça. A Papoila e o Monge. Lisboa: Assírio & Alvim, 2013.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Dentro de Casa - José Tolentino Mendonça

Todas as casas se parecem
com um naufrágio ou um saque
testam sucessivamente a elasticidade das gerações
compõem-se de heranças, jogos descasados,
cinco ou seis cores que vão ficando
sinais de um poder apenas atenuado

Quando estamos fora
à mercê dos elementos
o mundo celebra em nós
aquilo que se extingue

Estação Central. (2012). Lisboa: Assírio & Alvim.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A Papoila e o Monge - José Tolentino Mendonça

O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é

*

Silêncio:
na ravina inacessível
o prado em flor


A Papoila e o Monge, Assírio & Alvim, 2013.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

ARTE AMERICANA DO SÉCULO XX - José Tolentino de Mendonça



Há um telefone que toca
O homem levanta-se e fala por longo tempo
condescendente a cada repetição
Podia ser um cônsul errante
podia forçar a memória a soltar
a enseada, a estação ou o trilho
mas para entregar-se à luz
é preciso ser devorado por ela
e aparentemente ele depende disto
que vai repetindo:
«não que não te deseje boa sorte
para resolveres este sarilho.»
Duas horas depois está à janela
sem conseguir dormir
Há uns miúdos em algazarra mesmo ao seu lado
e dá-lhes tempo para se afastarem
pois falharia à primeira pergunta
que alguém fizesse
O luar apanha o rebentar da onda
quando ela se aproxima
e durante esses instantes
é como se a natureza ficasse ao contrário
e o tempo com ela
Estação Central, Assírio & Alvim, 2012

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Um poema de José Tolentino Mendonça


Os Justos

Começam o dia louvando o imperfeito
O tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam
amarelas no meio da palha
as talhas sem vinho
Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado

Estão sentados à soleira dos espaços
trabalhados devagar pelo silêncio
Quando Deus voltar
não terá de arrombar todas as portas

in Estação Central, Assírio & Alvim, 2012.