segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Um poema de Rui Cóias


São os olhos que aproximam os lugares do coração.
Agora que regressamos é nisto que penso
enquanto fazemos sinais uns para os outros com as luzes
dos carros, na rápida estrada, ao anoitecer.
Olha-se devagar para a vida e sobretudo assim
damos conta dos silêncios,
dos nomes devolvidos ao tão de leve silêncio.
A casa vincada pela névoa, a
aldeia imobilizada ao passearmos em grupos,
o café que me conforma quando o recebo entre as mãos.
Como dizer que são estas as mais secretas regiões da alma
a que voltamos sempre
nos maiores frios de dezembro?
Se de repente dizem que estamos a uma eternidade
frágil dos dias inquietos,
cruzas uma palma da mão sobre a outra e olhas para as
unhas, rindo de quando em vez para mim, que fico tão feliz.
e no regresso, quando os sobressaltos se repetem
e anoitece nas estradas vazias e o mundo adormece,
há uma solidão que estremece as bermas e nos aflige debaixo da
língua, como uma chuva miudinha.
Como falar depois da tua inclinada casa a meu lado
e do recanto mais longínquo dos pinhais?
Como acreditar que o tempo não tratá aos olhos a maior
solidão
em que ficámos?
Rui Coias, A Função do Geógrafo, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2000. Retirado daqui.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Alexandre Sarrazola - um poema

TODOS OS CÃES


todos os cães mudos de luz à passagem do cortejo
o sorriso do homem do trombone de varas
pendurado no rebate dos sinos
cai uma chuva miudinha a amortalhar o som dos metais
a tenda das comédias ensopa debo-
tada de uma alegria de domingo
vêm as crianças pedir as janeiras à nossa porta
cantam na sua inocência de quem não
sabe da lama nos nossos pés
e afagam-nos com cantigas de cristal para
nos limpar da tristeza pressentida
enfim a tarde vai chegando muito cedo e olha-
mos as janelas iluminadas das casas
que são dos outros,
como quem passeia um cão na noite da consoada


Merry Christmas (A.M. Pires Cabral et al.), Averno, Lisboa, 2006.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

CONFIAVA QUE SENDO MITSUBISHI A MINHA PENA - Daniel Jonas

CONFIAVA QUE SENDO MITSUBISHI A MINHA PENA
haveria de saber escrever haikus como Bashô.
Assim não é,
de nipónica a minha pena
nada tem;
a minha pena é portuguesa. Canta o fadô
como ninguém.


Daniel Jonas - retirado daqui.