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sábado, 29 de setembro de 2018

Refúgio - Vítor Nogueira

Seja como for, só te podes culpar a ti mesmo.
De algum modo, sempre foste fascinado
pelas estrelas. Mas um céu nebuloso decidiu
juntar-se a ti, sombras opacas num jogo
complicado. Já não é como um vestido,
não podes espreitar por baixo. Setembro
traz consigo os dias curtos. Tens de encontrar
um refúgio, por mais pequeno que seja.


Vítor Nogueira. Segunda Voz. Lisboa: Averno, 2014.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Rui Pires Cabaral

Nenhum comboio nos leva
tão longe: uma cidade morta


vive ainda na rara canção.
Escuta as palavras que ensina


e todas as coisas que volta
a mostrar: a noite, o regresso


ao quarto emprestado,
as caves com livros


de Charing Cross Road
e o tempo lá fora


tão frio.

 Rui Pires Cabral. Ladrador. Lisboa: Averno, 2012.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Requiem para um pássaro e um autocarro perdido

Mais um dia
Em forma de pássaro morto.
Uma amálgama ainda quente
da manhã que nasce, espécie de beleza
desmanchada a que nem o nosso olhar
consegue servir de pietá. O vento
teima em agitar uma ou outra pena,
mas não há golpe de asa que o arranque
agora ao asfalto negro.

Partilhamos, no fundo, a impotência:
o destino que o esmagou
é o mesmo que esperamos para
embarcar sem surpresas, sem direito a atrasos.
A essa indiferença cansada prefiro
a do outro pássaro que, lá muito em cima,
hoje ainda mais, refaz a traços negros
a vida. É por esses instantes
de voo que aceito continuar a aprender.


Inês Dias - Retirado daqui.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O Fruto - Rui Miguel Ribeiro


Registam a febre e o coração.
Neste fim de março em que
não vejo árvores de fruto,
chegam-me as novas da minha
nespereira, pejada, dizem-me.
À espera, como o meu sangue,
de que a vida seja uma protecção
adocicada, carnuda e macia,
pronta a colher.
XX dias, Averno, 2009.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Alexandre Sarrazola - um poema

TODOS OS CÃES


todos os cães mudos de luz à passagem do cortejo
o sorriso do homem do trombone de varas
pendurado no rebate dos sinos
cai uma chuva miudinha a amortalhar o som dos metais
a tenda das comédias ensopa debo-
tada de uma alegria de domingo
vêm as crianças pedir as janeiras à nossa porta
cantam na sua inocência de quem não
sabe da lama nos nossos pés
e afagam-nos com cantigas de cristal para
nos limpar da tristeza pressentida
enfim a tarde vai chegando muito cedo e olha-
mos as janelas iluminadas das casas
que são dos outros,
como quem passeia um cão na noite da consoada


Merry Christmas (A.M. Pires Cabral et al.), Averno, Lisboa, 2006.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Ana Paula Inácio

66-12-ZZ
Como um velho comerciante de carros falido
parecias saído de um filme de Tarantino.
Com as minhas plumas em forma de asas
e a maquilhagem de anjo doente
parecia saída de um filme de Wenders caído.
Relativamente às plumas, em forma de asas,
trazia os cálculos anotados
da distância a manter do Sol
e a imagem de Ícaro em chamas.
Mas naquele dia tudo correu mal.
O que poderíamos fazer de diferentes filmes saídos?
E choveu.
E o nevoeiro nem um cometa deixou ver.
A minha maquilhagem desfez-se,
confundiu-se com os veios das plumas
que se colaram à minha coluna vertebral
como um colete de forças.
E tu velho comerciante
já não me pudeste enganar
e vender um artefacto voador
por um coração ferido
in 2010-2011, Averno, 2011

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Um poema de Diogo Vaz Pinto


«O esperar de certos seres
      e de certas horas
que a sua juventude lhe seja devolvida»
  Julien Gracq, A costa das Sistes 

"Tive o tempo que quis e mais algum
para me tornar sério. Não fui por aí.
A família tinha a sua conta, e eu
sempre me fodi com números. Nunca
me deu para fechar linhas, ser firme,
ou manter a formação. Gosto de variar
a continência. Olhei muito em volta,
tudo piscava um olho. Não sei
governar-me, não sei com quantos
paus (...) nem sei fazer-me à vida,
antes faço que não é comigo. Mas sei
o que é amanhecer. Tenho colecções 
sem importância nenhuma, frágeis,
simples. O tinir da primeira luz
nos galhos, logo a gritaria dos pássaros
cavando a alvorada em roucas rajadas.
Uma aragem presa absorvendo
o aroma sumarento e entontecedor
de uns frutos caídos. A moleza e essa
sombra que me caiu às costas escorregando
de outro mundo"

in Bastardo, Averno, 2012

terça-feira, 6 de março de 2012

Deus nos Lírios

para a minha mãe

sinto deus, todas as noites, nos lírios
de Monet. olham por mim,
por este sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.

pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.

Renata Correia Botelho, Small Song, 2010, Averno.