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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Eda Ahi - dance lessons with gravity

they dance with you, gravity, everyone.
but only the brave know the steps they should take.
you’ve got that cruel but equalizing trait:
both rock and feather are attracted to you.

wearing your crown that depresses towards ground,
I obediently walk where you guide me to.
I love you heavily, dear gravity,
and wouldn’t exchange you, not even for wings.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Um poema de Ricardo Gil Soeiro

acredita: é só um rumor:
não sei escrever o vento, nem como se nasce outra vez.


nunca soube como se tece no piano a face vazia do tempo.


por favor, não perguntes:
pois eu não sei como germina um poema,
nem quantos dias cabem no teu rosto.


E como se conjuga a cidade e o adeus?


Perguntas, mas eu não sei o que é a morte.


Ricardo Gil Soeiro. Revista Babilónia, 2010.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Nuno Marques - Dia do Não (Douda Correria, 2018)

  «uma faca um murro
no ventre 
na barriga 
nos bofes
nas bochechas 
nas orelhas 
no peito 
nas nádegas

                abrir 
                sangrar 
                entrar 

                contra o muro 
em pé à bruta 
                de costas com força 
                a roncar 
                a estremecer 

                calado 
                uma chapada 
entre os olhos
                a abrir 
                a entrar »

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Fim da Era - Manel Seatra


As paredes fecham-se aos intrusos, a cidade torna-se num cubo de luzes e suspiros e
as rotundas são sempre desenhadas a compasso, sem falhas de circunferência
imprecisa ou de batota nos cálculos.

Dias de Folga. Lisboa: Douda Correria, 2018.

domingo, 20 de maio de 2018

Ossos - Beatriz Hierro Lopes

Os ossos dos pássaros mortos como relíquias de santos: usá-los-ia a todos se com isso achasse encontrar boa sorte. E se me perguntassem que ossos seriam aqueles que levaria ao peito, diria que são dos santos mais poluentes desta terra onde já não moram só gaivotas.

Mas não lhes conheço milagres: notícias de pássaros que curem vagabundos de cegueira, diabetes ou simples bebedeira. O seu propósito, destituído e substituído pelo quedar do olhar sobre o alcatrão; toda a mortalidade ali, e ainda assim a cegueira sem cura, que por não serem bichos religiosos não sabem abençoar os olhos aos que passam; nem ouvir deus recitando horários e mandamentos às rotinas. Acho que todos devíamos levar salmos nos bolsos, coisas de fácil digestão nos intervalos entre os subterrâneos.

Só à face das pedras os pombos revelam o seu lado mais secreto, por lhes conhecerem a natureza perversa com que provocam acidentes aos que as atravessam no inverno.

Desconfio dos pássaros por só os encontrar mortos. Tão pobremente mortos que nem sepultura, só os veios estreitos entre as pedras de granito até que se somem debaixo das solas dos sapatos ou na terra que dá às pedras a ilusão da unidade. Nisso lembram-me pessoas.

Divido-as por ordem poética: se uma elegia é uma gaivota à sombra, imaginando ser um abutre em áfrica, um soneto é um canário enclausurado numa gaiola demasiadamente espaçosa para a fome do gato, e uma redondilha é um pardal de pata partida encontrando conforto nas mãos de uma criança que, sem querer, o asfixia enquanto corre para o ir mostrar à sua mãe.

Os pássaros, como a poesia e como as pessoas, só servem para mostrar que a morte habita cada rua. E eu usaria um colar de ossos de finas asas, onde se gravassem os poemas de que mais gosto, se achasse que isso serviria para mudar a minha sorte de velório.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Nadar na piscina dos pequenos - Golgona Anghel

Hoje, vieram buscar-me cedo.
É a tal história, tiram-me do sono,
passam-me para a maca e 
ninguém quer saber das minhas vontades.
Nem fui fazer chichi, nem me fizeram o buço.
Estou com o bordado da fronha estampado nas fuças
e, com este péssimo aspecto,
fazem-me desfilar pelos corredores cheios de gente
que acorda de madrugada
e se põe bonita para vir aqui tirar fotografias
a rins e pulmões. 
Fora a vadiagem que só entra para aquecer os pés,
estou eu, feita bicho, amarrada a uma etiqueta,
como os cavalos na feira.
Por isso, puxo com os dois braços
uma fralda que encontro por perto
e enxugo o meu rosto pejado de medo,
porque tudo isto é uma merda,
mas depois melhora um pouco
quando me enchem de morfina
e me devolvem, à saída, o telemóvel.

Nadar na Piscina dos Pequenos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2017.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Save as Draft - Joel M. Toledo

Or write as poem. The whole point is often
what we miss out on. To revise is to reconsider
the experience of, say, a leaf - never mind
that is not green anymore. Or, pardon the sudden
evening. The transition was nice enough;
the explosive colors of dusk. And, didn't you feel
so much sadness? I cannot explain it any better
than how I could when the outlines were still there:
tress and some wonderful new shapes. 
Since then, things have changed. A pale hand
moves in the darkness. And someone is calling out,
come to bed, come to bed. And it is just you.
The evening insists on evening. It is that simple. 
It is late enough as it is.

Retirado daqui: http://www.softblow.org/toledo.html

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A poem by Sam Buchan-Watts

The Dogs
My most cherished photographs
transformed overnight into those of dogs:
big horny dogs in their ripest years
hogging the frame for themselves.
Every last photographer’s trick employed
so that even in the tacky studio where he couldn’t focus
my dog, like a good dog, looks ever curious and propositional
baring his hunk of incisor at us, its nourished decay.
In the more rough-cut alfresco shots with an arty contrast
between negative and positive textures, my black dog
merges with the dark or slides into a pond in such a way
that dog and pond are seamless.
In this dog world one ear of my dog is serendipitously
folded back forever, fixed there,
and though the tawny insides appear knobby and esoteric
they indicate a constant alertness to any thrown ball
or that he is newly ruffled from rolling in the buzzing grass.
There is a choice photo stashed in my wallet,
its creased folds powdery with friction; his profile
is divine against a backdrop of swirling marble blue.
This day I recall for its stressful hilarity; we could not bundle
his legs onto the stool. Since then the dog has been as mute
as the pictures. Perhaps somewhere
in his cropped-out lower throat, his bark is stuck.
Retirado daqui.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

The Expendables 2 - Sam Riviere

The airport where all movies end:
the scenery’s mobile, the people too
(the people want to be moved),
and the rounded stairways join set pieces
like farewells in a series arc. I don’t
understand how you write good scripts
without knowing there are gods. I’ve
learned the same things we’ve all learned:
when a man runs through my hotel suite
I can expect another half a second later.
Also, tell me why I keep two keys,
one of which unlocks something.
Also, I know, we know, that you (hell-o)
will have vanished before I finish saying this
and turn around. “You’ll do that,” I’ll mention 
to the night, and spin my swivel chair,
perusing the moment’s sunkenness. Meanwhile
my antivirus angel is checking every file.
We both know there’s a place you touch
when your plane lifts off (I won’t say where),
a little bolt that takes the plot apart,
so closure is dismantled, because from here
you can admit that nothing’s ever ended well.
You have queued to show your documents.
You have left behind your possessions
for the kind scientists. The stairs have spun
away and sunk, and in losing your itinerary
your position is confirmed. Like, the first time
a woman sees a diamond she just knows.

Retirado daqui.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

After two days - Marius Ianuş

After two days of thinking I'd die
after I swallowed a box of Piafen
and after I vomited it after 
I dreamt a crowd of characters
who where all I and who were taking care of me
gently covering my pain after 
that I called her
Come to me I told her now 
I looked like a potato that sprouted 
come to have fun 
we'll play beauty and 
the beast at Predeal I didn't succeed to 
fall asleep here I can my mother can't
live by herself at Predeal 
but I felt I was going mad I left her
come to me Oana I love loneliness
Then I hang up and told myself hell
is a white room where you lay tied-up and all
your teeth hurt and after they've all crumbled 
new ones grow overnight 
already decayed.

Retrieved from here. Translation by Adrien Urmanov.  

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Collaboration - Ciarán Carson

I am being paraded through the streets with my head shaved,
with no memory of what I have done to deserve this.

I run a gauntlet of women who call me slut and whore,
staggering under their fusillade of accusation:

What stories did I tell, what lies? What names did I reveal?
What men did I sleep with? What did I do? For what reward?

Or in a catacomb deep under Paris they press gloves
of barbed wire on to my bare hands, and when the wounds have healed

they point to the brambles left on my palms, saying, Surely
these lines of head and heart and mind are those of a traitor.

When you wake I hold you tight, saying, It’s only a dream,
the language of dream has nothing to do with that of life.

And as eventually you sink back into the deep well
of sleep, I wonder if by my words I have betrayed you.

Ciarán Carson. "Collaboration". For All We Know, 2008.


quarta-feira, 16 de março de 2016

Leche Amarga - Ana Sedano Solis

ahógame
gotean estas hagas
un hedor espeso
rómpeme


abro me

eréctame el temblor de otra lengua
/sángrome
con ese otro látex que afano anhelo es
pero que no es yo

trago la blanca manada 
y en los albos recodos
jadeando 

me sorbo.


Retirado daqui.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Tirar a Solidão - Sónia Baptista

sei fazer música com uma pedra espalmada
abraçar as árvores do lado que se adormece a norte
seios, que os tenho, contra musgo espartilhados

se do abraço o verde tinge fico um dia de molho, entre correrias de água

solta, riacho, salta
que frio não sinto

beijos de truta no peito barriga coxas são sabão

depositam-me pepitas de ouro na mão

confundiu-se uma, truta, de amores uma vez

desovou-me na mão
a direita
a roçar a margem

de novo musgo fiz ninho a jusante

larguei da mão, montei guarda

cantei embalos com pedra espalmada

nomes de baptismo, bolacha, chá verde, matcha

luva, cão, camisa branca de seda muito leve e tudo o que sinto falta, eu bicho impossível da neve

ter saudade da língua queimada de chá, cevada, chocolate quente

aqui queimar a língua com frio dormente

com musgo nos lábios à espera

e, quando um dia o tempo amainou

num instante para sul nadaram

bolacha, chá verde, matcha

luva, cão, camisa branca de seda muito leve e tudo o que sinto falta, eu bicho impossível da neve

Sónia Baptista. Tempus Fugit. Mariposa Azul: Lisboa, 2012.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cinemas vi no ar - Miguel Cardoso

Manhã seguinte
As manhãs seguintes
vêem-se de cima: terra

plana, mansa e difícil
sertão por dentro vereda

e depois terra
de cima plana

e mansa, mas difícil

Nenhum incêndio na vista
uma leve luz uma leve luz

e o brusco regresso
de ruídos à vida do musgo



Miguel Cardoso. À Barbárie Seguem-se os Estendais. &ect, 2015. Retirado daqui.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Valentine - Owen Sheers

The water torture of your heels
emptying before me down that Paris street,
evacuated as the channels of our hearts.

That will be one memory.

The swing of the tassels on your skirt
each step filling out the curve of your hip;
your wet lashes, the loss of everything we’d learnt.

That will be another.

Then later – holding each other on the hotel bed
like a pair of wrecked voyagers
who had thought themselves done for,

only to wake washed up on the shore
uncertain in their exhaustion
whether to laugh or weep.

That my valentine, will be the one I’ll keep.  

Owen Sheers. Skirrid Hill, 2005.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Há dez anos que escrevo o mesmo poema - Raquel Nobre Guerra

Há dez anos que escrevo o mesmo poema
no mesmo café.
Esta ideia arrumada nesta cadeira triste
todos os dias no mesmo sítio.
Até que me venham bater à porta
ando meio distraída nisto. 

Falam-me da barbárie e dos seus irmãos brutos
mas ninguém falou ainda da flor de Coleridge
nem das pernas melancólicas dos meus amigos. 

Exceptuando isto penso no imenso com os dentes.
Penso num serviço de chá e numa porta de serviço.
Penso num chão absoluto no petróleo e na lixívia.
Penso na tua cabeça enunciativa e és um Rolls
às nove e meia da noite para toda a parte comigo. 

Exceptuando isto talvez não se morra e ninguém
desça à guerra e ao medo senão pelos livros.
Penso no amor e exceptuando isso está frio
e a mudança de hora e a jukebox
e contar-te os meus medos porque penso nisto há dez anos
que penso nisto. 
Cruz na porta da tabacaria e o teu cabelo
cortado à escovinha.
Há dez anos que desconfio do mesmo poema 

forma inteira do homem para diante
e de diante para o abismo
  
E poder ser livre e fumar na cama
com a excitação de arder numa linha. 

É que Sócrates nunca escreveu.
Milton ao menos fingia.
No fim de contas caía bem.
Um Kropotkin e uma bica.

E convicção ser do teu signo.
Porque uma coisa nos atraía.
Fome não era adição.
Erecção não era cinismo.
Porque havia motivo para risos. 

Tu nunca te atrasaste.
Tu nunca te mataste.
Porque enfim não mentiste 

que há dez anos que escreves o mesmo poema 

tu que só queres o sol
para descê-lo para descê-lo
ilha dos amores  

no mesmo corpo no mesmo casaco
apoiado à esquerda do meu braço.

Publicado no nº2 da Enfermaria 6, Julho 2014. Retirado daqui.