o chris brown bateu na rihanna
e eu não estava lá
só cheguei mais tarde quando ela
já estava pisada
na capa de uma revista qualquer.
a rita abortou sozinha
numa sala onde a fizeram dizer
como quando onde
porque é que deixaste
sua puta, onde está o teu namorado
agora? onde está a tua libido
agora? e eu só cheguei
sete anos mais tarde
para lhe dizer que lamento toda a solidão.
a maria casou-se com um dependente
químico para poder deixar de ser
emigrante ilegal viu-o enfiar opióides
pelo cu acima e coca narinas abaixo
anos mais tarde ficou pior
para além de cheirar ele votou no AfD,
a maria teve medo quando
ele levantou a voz então saiu
e foi para a estação de camioneta
já fazia neve e alguns graus negativos,
acho que ela teve frio. só cheguei
uma semana depois
para lhe dizer que ela não devia
ter de passar frio
em noites como aquela
o comunista de há muitos anos
quis bater em mim mas
em vez disso optou por
esmurrar a parede
de certa forma fiquei agradecida
sou péssima a mentir
ou a espalhar maquilhagem
pior ainda a explicar sem modéstia que
consigo deixar um homem louco
mesmo que isso signifique um punho
a dois centímetros do meu rosto
e por isso mesmo achei que
não seria urgente - só cheguei muito mais tarde
para me dizer que lamento que ainda
sei como se entranha na garganta
o som seco de um punho na parede
e ainda gosto de pensar que não era eu ali
quando o pequeno chris brown de trazer na algibeira
se masturba avidamente com a mesma capa de revista
enquanto me sopra ao ouvido:
não estavas lá.
Retirado daqui.
“Books are finite, sexual encounters are finite, but the desire to read and to fuck is infinite; it surpasses our own deaths, our fears, our hopes for peace.” ― Roberto Bolaño
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quarta-feira, 26 de junho de 2019
quinta-feira, 12 de abril de 2018
Francisco - José Pedro Moreira
dava de comer aos gatos no quintal
e eles vinham o pior era quando
as gatas escolhiam o quintal para dar à luz
a minha mãe enchia um balde com água
e metia lá os pequeninos até eles deixarem
de miar eles já não miavam e depois
atirava-os para o caixote do lixo
não dês de comer à merda dos gatos
já estou farta de te dizer para
não dares de comer à merda dos gatos
e a gata miava à volta do limoeiro
miava debaixo do tanque
a gata miava até a minha mãe a enxotar
a gata fugia da minha mãe a minha
mãe com a vassoura não voltes
gata de merda nunca mais te quero aqui ver
e a gata fugia mas voltava mais tarde
e eu dava-lhe de comer e quando
a minha mãe me apanhava batia-me
estou farta de te dizer
para não dares de comer à merda dos gatos
José Pedro Moreira. Gatos no Quintal. Lisboa: Enfermaria 6, 2018.
e eles vinham o pior era quando
as gatas escolhiam o quintal para dar à luz
a minha mãe enchia um balde com água
e metia lá os pequeninos até eles deixarem
de miar eles já não miavam e depois
atirava-os para o caixote do lixo
não dês de comer à merda dos gatos
já estou farta de te dizer para
não dares de comer à merda dos gatos
e a gata miava à volta do limoeiro
miava debaixo do tanque
a gata miava até a minha mãe a enxotar
a gata fugia da minha mãe a minha
mãe com a vassoura não voltes
gata de merda nunca mais te quero aqui ver
e a gata fugia mas voltava mais tarde
e eu dava-lhe de comer e quando
a minha mãe me apanhava batia-me
estou farta de te dizer
para não dares de comer à merda dos gatos
José Pedro Moreira. Gatos no Quintal. Lisboa: Enfermaria 6, 2018.
terça-feira, 23 de janeiro de 2018
Fernando Guerreiro - Imagens Roubadas
3. Somos assim conduzidos do noli me tangere à tuché (Lacan).
Deste ponto de vista, talvez todo o filme se possa conter no raccord que liga o fim com o princípio: o primeiro plano em queo Sr. Chow toca na campainha da porta e a mão que enche oburaco no templo de Angkor.
Deste ponto de vista, talvez todo o filme se possa conter no raccord que liga o fim com o princípio: o primeiro plano em queo Sr. Chow toca na campainha da porta e a mão que enche oburaco no templo de Angkor.
Nesse segundo orifício vemos o emblema/ hieróglifo da forma (do filme): o segredo que preenche fertilmente o vazio da forma, misturando, confundindo géneros e registos – o humano, o mineral e o vegetal –, e constrói, a partir dele, uma forma ramificada e arborescente, rizomática e orgânica. Uma floresta (mundo) em diminuitivo.
Talvez o amor (o cinema) seja outro nome para um acaso feliz: um vazio cheio ou uma coincidência objectiva.
Talvez o amor (o cinema) seja outro nome para um acaso feliz: um vazio cheio ou uma coincidência objectiva.
Noites na Enfermaria (parte digital de Imagens Roubadas). Lisboa: Enfermaria 6, 2017.
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Cavalos em movimento - Hugo Milhanas Machado
Uma vez disse que gostava de entrar em Lisboa a cavalo, que partia de
muito longe, nem sabe de onde, e que ia por aí fora comendo terras e
terras a caminho do cotovelo do mar, desse recosto de terra onde, diz,
bate e bate o mar, e entrar na cidade montado no seu cavalo com ar
fresco e sorriso montado, e a malta toda a ver, todo o mundo na rua com
metais coloridos e braços altos tipo estátuas de vidro, mas um vidro
diferente, que não sabe bem explicar, e entra na cidade e vai por aí
fora, desfaz as ruas que muitos tempos antes, muitos anos antes
palmilhara sem freio, quando ali morava ou passava perto ou simplesmente
se imaginava pisando aqueles passeios, diz ele que se vê entrar na
cidade montado no cavalo e que depois chega à porta de casa e diz já cá
estou, e entra em casa montado no cavalo, tira qualquer coisa da mochila
e arranca em sentido contrário, retomando o trilho que o levara até
ali. Uma vez disse que gostava de montar uma tenda em Fuerteventura, mas
que só sabe Fuerteventura depois de escutar o disco de uma madrilena
que faz o sol inchar quando faz sol e a chuva engrossar no corpo quando
chove, que gosta, que quer chegar lá e montar uma tenda e ser valente,
correr descalço nos vulcões e pisar o mar, pisar do mar, diz, que a
grande valentia é saber pisar do mar, e que a valentia é a parte gorda
da vida, e quando disse isto nós sorrimos, nós gostamos e ficamos a
pensar em Fuerteventura e nos cavalos em Lisboa, diz que chega e monta a
tenda nas praias de Fuerteventura e depois fala numa selva, numa selva
que não é dali, que corre num cavalo pelo meio do arvoredo e que corre
cada vez mais depressa e o arvoredo não acaba, que passadas umas horas
se apercebe que afinal o cavalo não corre e que portanto ele está
sentado num tempo grosso mas um tempo ágil, nervoso, porque ao fim e ao
cabo os membros do cavalo estão activos e sincronizam-se no movimento do
passo, de um passo que parece vigoroso e harmónico, redondo, e que as
árvores continuam a malucar de um lado e do outro, sempre as mesmas
árvores, de todas as cores, diz, e perde-se na descrição das cores das
árvores, dos troncos?, da folhagem?, perguntamos, e fala no verde e no
roxo das árvores, do amarelo e do azul, do encarnado e do prata, diz o
prata, fala em árvores brancas, árvores que se repetem umas depois das
outras no bater aéreo das patas de um cavalo gigante, diz, um cavalo que
imobilizado mas em movimento vai ganhando corpo e cresce e as árvores
crescem mas não tanto, como se a vontade do cavalo prevalecesse sobre a
da cor da selva. Fala devagar quando fala de Fuerteventura ou quando se
lembra da alegria de Lisboa. Uma vez também disse que tinha uma vontade
de barco e quando disse isto ninguém percebeu ao certo o que queria
dizer, por minha parte só passados uns anos entendi o que era possuir um
arranque daqueles, que tinha uma vontade de barco, e braços de barco e
uma cabeça feita de barco, que tinha aquelas maneiras tão feitas e tão
agrestes e que podia desaparecer para sempre mar adentro, qualquer mar,
qualquer praia, diz, e remar meses e anos e todo o tempo rumo ao chão do
mundo ou ao tecto do mundo e evitar terra quando a visse, inverter rota
ao mínimo avistamento de um objecto fixo, desviar aquele corpo de barco
dos outros, manter os olhos na mais ínfima das folas, diz, conservar o
barco num ideal de movimento contínuo, incessante, um remar eterno, um
remar de não querer chegar nunca, remar até que dele se esqueçam e ele
próprio, muito antes disso, se esqueça daquele corpo de barco que a
língua de um país lhe tinha ensinado.
Retirado daqui
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Há dez anos que escrevo o mesmo poema - Raquel Nobre Guerra
Há dez anos que escrevo o mesmo poema
no mesmo café.
Esta ideia arrumada nesta cadeira triste
todos os dias no mesmo sítio.
Até que me venham bater à porta
ando meio distraída nisto.
Falam-me da barbárie e dos seus irmãos brutos
mas ninguém falou ainda da flor de Coleridge
nem das pernas melancólicas dos meus amigos.
Exceptuando isto penso no imenso com os dentes.
Penso num serviço de chá e numa porta de serviço.
Penso num chão absoluto no petróleo e na lixívia.
Penso na tua cabeça enunciativa e és um Rolls
às nove e meia da noite para toda a parte comigo.
E poder ser livre e fumar na cama
com a excitação de arder numa linha.
É que Sócrates nunca escreveu.
Milton ao menos fingia.
No fim de contas caía bem.
Um Kropotkin e uma bica.
E convicção ser do teu signo.
Porque uma coisa nos atraía.
Fome não era adição.
Erecção não era cinismo.
Porque havia motivo para risos.
Tu nunca te atrasaste.
Tu nunca te mataste.
Porque enfim não mentiste
que há dez anos que escreves o mesmo poema
no mesmo café.
Esta ideia arrumada nesta cadeira triste
todos os dias no mesmo sítio.
Até que me venham bater à porta
ando meio distraída nisto.
Falam-me da barbárie e dos seus irmãos brutos
mas ninguém falou ainda da flor de Coleridge
nem das pernas melancólicas dos meus amigos.
Exceptuando isto penso no imenso com os dentes.
Penso num serviço de chá e numa porta de serviço.
Penso num chão absoluto no petróleo e na lixívia.
Penso na tua cabeça enunciativa e és um Rolls
às nove e meia da noite para toda a parte comigo.
Exceptuando isto talvez não se morra e ninguém
desça à guerra e ao medo senão pelos livros.
Penso no amor e exceptuando isso está frio
e a mudança de hora e a jukebox
e contar-te os meus medos porque penso nisto há dez anos
que penso nisto.
desça à guerra e ao medo senão pelos livros.
Penso no amor e exceptuando isso está frio
e a mudança de hora e a jukebox
e contar-te os meus medos porque penso nisto há dez anos
que penso nisto.
Cruz na porta da tabacaria e o teu cabelo
cortado à escovinha.
Há dez anos que desconfio do mesmo poema
cortado à escovinha.
Há dez anos que desconfio do mesmo poema
forma inteira do homem para diante
e de diante para o abismo
e de diante para o abismo
E poder ser livre e fumar na cama
com a excitação de arder numa linha.
É que Sócrates nunca escreveu.
Milton ao menos fingia.
No fim de contas caía bem.
Um Kropotkin e uma bica.
E convicção ser do teu signo.
Porque uma coisa nos atraía.
Fome não era adição.
Erecção não era cinismo.
Porque havia motivo para risos.
Tu nunca te atrasaste.
Tu nunca te mataste.
Porque enfim não mentiste
que há dez anos que escreves o mesmo poema
tu que só queres o sol
para descê-lo para descê-lo
ilha dos amores
para descê-lo para descê-lo
ilha dos amores
no mesmo corpo no mesmo casaco
apoiado à esquerda do meu braço.
apoiado à esquerda do meu braço.
Publicado no nº2 da Enfermaria 6, Julho 2014. Retirado daqui.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Ben Zhakai - Tatiana Faia
três da manhã em budapeste
no piso subterrâneo de um hotel
um homem e uma mulher
deixam-se ir ficando para a privacidade
suburbana de um parque de estacionamento
no piso subterrâneo de um hotel
um homem e uma mulher
deixam-se ir ficando para a privacidade
suburbana de um parque de estacionamento
dentro do carro conversam
como quem joga xadrez
sacrificando peça após peça
com uma atenção metódica
indício talvez de um punhado
de critérios mais sábios
como quem joga xadrez
sacrificando peça após peça
com uma atenção metódica
indício talvez de um punhado
de critérios mais sábios
eles lembram-te de outra história de rabis
ben zakhai negociou habilmente sobre jerusalém
preparou em desespero o render da cidade
ele e o imperador tinham conversas de planos
entretiveram com tacto grave
discussões de sucessivas estratégias
ben zakhai negociou habilmente sobre jerusalém
preparou em desespero o render da cidade
ele e o imperador tinham conversas de planos
entretiveram com tacto grave
discussões de sucessivas estratégias
mas por enigmas desencontrados
cada um deles reclamava ainda outra coisa
já que há tudo a perder mais vale
querer cada vez mais, imagina que
cada um deles reclamava ainda outra coisa
já que há tudo a perder mais vale
querer cada vez mais, imagina que
ben zakhai talvez tenha dito a vespasiano
uma destruição esconde sempre
outra destruição e a destruição seguinte outra
até não sobrar nenhuma casa
tu daqui vais para roma e eu sabe deus
uma destruição esconde sempre
outra destruição e a destruição seguinte outra
até não sobrar nenhuma casa
tu daqui vais para roma e eu sabe deus
e não há-de haver já nada
dentro de nenhuma das casas nesta cidade
contidas como soldados demasiado jovens
escondendo-se ao perceber o primeiro dever do medo,
o de se enterrarem no refúgio circular das muralhas
dentro de nenhuma das casas nesta cidade
contidas como soldados demasiado jovens
escondendo-se ao perceber o primeiro dever do medo,
o de se enterrarem no refúgio circular das muralhas
nada das coisas que compõem uma cidade
o nosso comércio o discreto barulho
das nossas mulheres no seu ir e vir
coisa calada de com os filhos pelas mãos
o nosso comércio o discreto barulho
das nossas mulheres no seu ir e vir
coisa calada de com os filhos pelas mãos
as intactas paredes das nossas casas
o recolhimento sossegado pela tarde
da sombra dos nossos pátios mais interiores
o sussurrar na fala grave de homens
entretidos em conversas de negócios
nada, não há aqui metáfora nenhuma
o recolhimento sossegado pela tarde
da sombra dos nossos pátios mais interiores
o sussurrar na fala grave de homens
entretidos em conversas de negócios
nada, não há aqui metáfora nenhuma
começando por uma coisa qualquer
é possível
se assim quiseres
continuar a partir tudo indefinidamente
tudo pode ser minuciosamente destruído
é possível
se assim quiseres
continuar a partir tudo indefinidamente
tudo pode ser minuciosamente destruído
contra esta mais espessa noite
a ideia de um nó tão fundo que só isso explique
uma cidade inteira calcinada
para que a mesma cidade possa recomeçar
a ideia de um nó tão fundo que só isso explique
uma cidade inteira calcinada
para que a mesma cidade possa recomeçar
Teatro de Rua, do lado esquerdo, 2013
Retirado daqui
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