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quarta-feira, 26 de junho de 2019

não estavas lá - Francisca Camelo

o chris brown bateu na rihanna
e eu não estava lá
só cheguei mais tarde quando ela
já estava pisada
na capa de uma revista qualquer.
a rita abortou sozinha
numa sala onde a fizeram dizer
como quando onde
porque é que deixaste
sua puta, onde está o teu namorado
agora? onde está a tua libido
agora? e eu só cheguei
sete anos mais tarde
para lhe dizer que lamento toda a solidão.
a maria casou-se com um dependente
químico para poder deixar de ser
emigrante ilegal viu-o enfiar opióides
pelo cu acima e coca narinas abaixo
anos mais tarde ficou pior
para além de cheirar ele votou no AfD,
a maria teve medo quando
ele levantou a voz então saiu
e foi para a estação de camioneta
já fazia neve e alguns graus negativos,
acho que ela teve frio. só cheguei
uma semana depois
para lhe dizer que ela não devia
ter de passar frio
em noites como aquela
o comunista de há muitos anos
quis bater em mim mas
em vez disso optou por
esmurrar a parede
de certa forma fiquei agradecida
sou péssima a mentir
ou a espalhar maquilhagem
pior ainda a explicar sem modéstia que
consigo deixar um homem louco
mesmo que isso signifique um punho
a dois centímetros do meu rosto
e por isso mesmo achei que
não seria urgente - só cheguei muito mais tarde
para me dizer que lamento que ainda
sei como se entranha na garganta
o som seco de um punho na parede
e ainda gosto de pensar que não era eu ali
quando o pequeno chris brown de trazer na algibeira
se masturba avidamente com a mesma capa de revista
enquanto me sopra ao ouvido:
não estavas lá. 


Retirado daqui.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Fernando Guerreiro - Imagens Roubadas

3. Somos assim conduzidos do noli me tangere à tuché (Lacan).
     Deste ponto de vista, talvez todo o filme se possa conter no raccord que liga o fim com o princípio: o primeiro plano em queo Sr. Chow toca na campainha da porta e a mão que enche oburaco no templo de Angkor.
      Nesse segundo orifício vemos o emblema/ hieróglifo da forma (do filme): o segredo que preenche fertilmente o vazio da forma, misturando, confundindo géneros e registos – o humano, o mineral e o vegetal –, e constrói, a partir dele, uma forma ramificada e arborescente, rizomática e orgânica. Uma floresta (mundo) em diminuitivo.
    Talvez o amor (o cinema) seja outro nome para um acaso feliz: um vazio cheio ou uma coincidência objectiva.

Noites na Enfermaria (parte digital de Imagens Roubadas). Lisboa: Enfermaria 6, 2017.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O Avô disse ao gato - Catarina Nunes de Almeida

O poema não é uma asa-delta com um poema
não se levanta voo com um poema somos bem capazes
de nem ir a lado nenhum.


O poema é apenas uma forma delicada
de um homem se despenhar
sobre os destroços de um outro homem.


Catarina Nunes de Almeida. O Dom da Palavra. Lisboa: Não Edições, 2016.

sábado, 31 de dezembro de 2016

LITTLE RACKET - Anne Carson

Sunday evening, evening gray. All day the storm did not quite storm. Clouds closed in, sulked, spat. We put off swimming. Took in the chairs. Finally (about seven) a rumbling high up. A wind went round the trees tossing each once and releasing arbitrary rivulets of cool air downward, this wind which came apart, the parts swaying out, descending, bumping around the yard awhile not quite on the count then a single chord ran drenched across the roof, the porch and stopped. We all breathed. Maybe that’s it, maybe it’s over, the weatherman is often wrong these days, we can still go swimming (roll call? glimpse of sun?) when all at once the sluices opened, broke a knot and smashed the sky to bits, which fell and keep falling even now as dark comes on and fabled night is managing its manes and the birds, I can hear from their little racket, the birds are burning up and down like holy fools somewhere inside it—far in where they keep the victim, smeared, stinking, hence the pageantry, hence the pitchy cries, don’t keep saying you don’t hear it too.

Retirado daqui. 


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Present - W. S. Merwin

As they were leaving the garden
one of the angels bent down to them and whispered

I am to give you this
as you are leaving the garden

I do not know waht it is
or what it is for
what you will do with it

you will not be able to keep it
but you will not be able 

to keep anything 
yet both reached at once

for the present
and when their hands met
´
they laughed

From Garden Time. W. S. Merwin. Canyon Press, 2016

sábado, 16 de abril de 2016

Nocturno para Varsóvia - Filipa Leal

Gostava de te convidar para minha casa,
como aos amigos nos velhos tempos.
Abria uma garrafa de vinho e contava-te de quando era pequeno
e tu contavas-me de como te corre o emprego, o amor.
Vemo-nos todos os dias e falamos tão pouco.
Estendo-te a mão e às vezes dás-me uma moeda,
mas falamos tão pouco.
Gostava de te convidar para minha casa
mas não tenho casa, vai ter de ficar para a próxima.


Filipa Leal. Vem à Quinta-feira. Lisboa: Assírio & Alvim, 2016.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Herberto

nunca mais quero escrever numa língua voraz,
porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça,
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo -
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence,
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só seu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-los numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio


Servidões, Assírio & Alvim, 2013

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Um poema de Miguel-Manso

paraste numa rua decaída
como o Sol
o abatimento de bengala tornando
devagar a caminho de casa

única cedência da alegria:
o perfume das laranjeiras o complô
acriançado dos pássaros o branco fabuloso
desses muros – se afastasses da ideia
o aperto que arquitectam –

alguém te chamou, olhaste
saudou-te com um entusiasmo forçado e no fim
trocou o teu nome pelo nome do teu pai
(eu só te conheci a mãe)

não corrigiste esse nem nenhum
outro desacerto
(o mais premente e perturbador de todos
visto assim não tem cura)

e seguiste à sombra do teu morto
ainda mais calado


Miguel-Manso, Supremo 16/70, Artefacto, 2013.

Retirado daqui.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Dias de Tempestade


Dias de Tempestade
Edição de autor, 96 páginas.

Design de Sara Didelet

O lançamento está para breve. Este livro já pode ser adquirido via mail. 

O preço de venda é 10 euros (mais portes de envio, caso o livro seja enviado por correio).

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

1



escrever poesia é um exercício de ruptura,

um caso de amor com dimensões trágicas



Da série Biografia não Oficial

(A sair um dia destes)

José Duarte

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

E a Alice tem destas coisas




É verdade.

A Alice tem mesmo destas coisas,
aparece e desaparece quando lhe apetece.

Mesmo para rimar, isto é, para quem quiser comprar:

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Exercício de Ruptura


ela espera-o ansiosamente.

sempre que pode, sonha com ele a entrar em casa,

a mão a abrir a porta, a cumprimentar o cão de loiça,

a abrir os braços em vez de os levantar.

tem uma manta de retalhos que lhe quer oferecer

e que faz e desfaz, dado o nervosismo,

a incerteza de que o produto não é fiel.

trata as fotografias antigas por tu,

como velhas companheiras de viagem e

chora a ausência da sua antiga família.

quando vê filmes, também ela

acha que já foi rainha.

ele é camionista ou imigrante ou sei lá.

de vez em quando telefona-lhe e diz que

em breve estará em casa.

ela ouve sons, a estrada, o asfalto,

às vezes os motéis, quase que tosse de sentir tanta sujidade,

as sirenes, a água a correr.

ela quando pode deita-se e sonha.

aguarda. ele quando se deita sabe que não poderá

regressar.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Lançamento do Livro João Resolve o Seu Mistério

Convite para estarem no lançamento do meu novo livro: João Resolve o Seu Mistério
Apresentação a cargo de Professora Doutora Isabel Fernandes
13 de Dezembro, 17h30
Instituto dr Cultura Americana
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa