“Books are finite, sexual encounters are finite, but the desire to read and to fuck is infinite; it surpasses our own deaths, our fears, our hopes for peace.” ― Roberto Bolaño
quarta-feira, 26 de junho de 2019
não estavas lá - Francisca Camelo
e eu não estava lá
só cheguei mais tarde quando ela
já estava pisada
na capa de uma revista qualquer.
a rita abortou sozinha
numa sala onde a fizeram dizer
como quando onde
porque é que deixaste
sua puta, onde está o teu namorado
agora? onde está a tua libido
agora? e eu só cheguei
sete anos mais tarde
para lhe dizer que lamento toda a solidão.
a maria casou-se com um dependente
químico para poder deixar de ser
emigrante ilegal viu-o enfiar opióides
pelo cu acima e coca narinas abaixo
anos mais tarde ficou pior
para além de cheirar ele votou no AfD,
a maria teve medo quando
ele levantou a voz então saiu
e foi para a estação de camioneta
já fazia neve e alguns graus negativos,
acho que ela teve frio. só cheguei
uma semana depois
para lhe dizer que ela não devia
ter de passar frio
em noites como aquela
o comunista de há muitos anos
quis bater em mim mas
em vez disso optou por
esmurrar a parede
de certa forma fiquei agradecida
sou péssima a mentir
ou a espalhar maquilhagem
pior ainda a explicar sem modéstia que
consigo deixar um homem louco
mesmo que isso signifique um punho
a dois centímetros do meu rosto
e por isso mesmo achei que
não seria urgente - só cheguei muito mais tarde
para me dizer que lamento que ainda
sei como se entranha na garganta
o som seco de um punho na parede
e ainda gosto de pensar que não era eu ali
quando o pequeno chris brown de trazer na algibeira
se masturba avidamente com a mesma capa de revista
enquanto me sopra ao ouvido:
não estavas lá.
Retirado daqui.
quinta-feira, 17 de maio de 2018
quarta-feira, 2 de maio de 2018
terça-feira, 23 de janeiro de 2018
Fernando Guerreiro - Imagens Roubadas
Deste ponto de vista, talvez todo o filme se possa conter no raccord que liga o fim com o princípio: o primeiro plano em queo Sr. Chow toca na campainha da porta e a mão que enche oburaco no templo de Angkor.
Talvez o amor (o cinema) seja outro nome para um acaso feliz: um vazio cheio ou uma coincidência objectiva.
Noites na Enfermaria (parte digital de Imagens Roubadas). Lisboa: Enfermaria 6, 2017.
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
O Avô disse ao gato - Catarina Nunes de Almeida
não se levanta voo com um poema somos bem capazes
de nem ir a lado nenhum.
O poema é apenas uma forma delicada
de um homem se despenhar
sobre os destroços de um outro homem.
Catarina Nunes de Almeida. O Dom da Palavra. Lisboa: Não Edições, 2016.
sábado, 31 de dezembro de 2016
LITTLE RACKET - Anne Carson
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Present - W. S. Merwin
one of the angels bent down to them and whispered
I am to give you this
as you are leaving the garden
I do not know waht it is
or what it is for
what you will do with it
you will not be able to keep it
but you will not be able
to keep anything
yet both reached at once
for the present
and when their hands met
´
they laughed
From Garden Time. W. S. Merwin. Canyon Press, 2016
sábado, 16 de abril de 2016
Nocturno para Varsóvia - Filipa Leal
como aos amigos nos velhos tempos.
Abria uma garrafa de vinho e contava-te de quando era pequeno
e tu contavas-me de como te corre o emprego, o amor.
Vemo-nos todos os dias e falamos tão pouco.
Estendo-te a mão e às vezes dás-me uma moeda,
mas falamos tão pouco.
Gostava de te convidar para minha casa
mas não tenho casa, vai ter de ficar para a próxima.
Filipa Leal. Vem à Quinta-feira. Lisboa: Assírio & Alvim, 2016.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Herberto
porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça,
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo -
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence,
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só seu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-los numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio
Servidões, Assírio & Alvim, 2013
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Um poema de Miguel-Manso
como o Sol
o abatimento de bengala tornando
devagar a caminho de casa
única cedência da alegria:
o perfume das laranjeiras o complô
acriançado dos pássaros o branco fabuloso
desses muros – se afastasses da ideia
o aperto que arquitectam –
alguém te chamou, olhaste
saudou-te com um entusiasmo forçado e no fim
trocou o teu nome pelo nome do teu pai
(eu só te conheci a mãe)
não corrigiste esse nem nenhum
outro desacerto
(o mais premente e perturbador de todos
visto assim não tem cura)
e seguiste à sombra do teu morto
ainda mais calado
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Dias de Tempestade
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
1
escrever poesia é um exercício de ruptura,
um caso de amor com dimensões trágicas
Da série Biografia não Oficial
(A sair um dia destes)
José Duarte
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
E a Alice tem destas coisas
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Exercício de Ruptura
ela espera-o ansiosamente.
sempre que pode, sonha com ele a entrar em casa,
a mão a abrir a porta, a cumprimentar o cão de loiça,
a abrir os braços em vez de os levantar.
tem uma manta de retalhos que lhe quer oferecer
e que faz e desfaz, dado o nervosismo,
a incerteza de que o produto não é fiel.
trata as fotografias antigas por tu,
como velhas companheiras de viagem e
chora a ausência da sua antiga família.
quando vê filmes, também ela
acha que já foi rainha.
ele é camionista ou imigrante ou sei lá.
de vez em quando telefona-lhe e diz que
em breve estará em casa.
ela ouve sons, a estrada, o asfalto,
às vezes os motéis, quase que tosse de sentir tanta sujidade,
as sirenes, a água a correr.
ela quando pode deita-se e sonha.
aguarda. ele quando se deita sabe que não poderá
regressar.





