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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Rosto, Clareira e Desmaio - Miguel-Manso

O nervo vago sai do crânio pela cova jugular,
suspenso desde o hangar das ideias, a vacilar postura abaixo


até à natureza,


até ao bosque do coração, por exemplo, 
até, por exemplo, ao músculo da fala, monstruoso,
por exemplo, até à pele transpirada onde os insectos famintos
vêm beber.

Tudo o mais que povoa e opera cé em baixo,
na natureza humana,
é vagamente transmitido por este nervo, e quando não,
chamamos de síncope vagal ao fenómeno. 

Desmaio, maduro desmaio, abertura
ao Universo,
Secreção de sentenças e oráculos ponderados nos hangares,
depois convertidos em angústias e esgares.

É uma inclinação sem ponto fixo.
Uma infecção a partir da qual.
Tudo o que sai do homem é supersticiosamente impuro
- ó arame, diz-me quem te enrolou farpado? - 
e deverá ser purgado no excesso ou, no meu caso, 
no resfriado que se apanha no vento de feiticeiros e nas coisas
teleguiadas. 

Operou em mim não sei que inclinação
para o mistério. Fui estrangeiro de tudo menos da velocidade
com que escrevi a palavra do bosque 
e depois a esqueci, lançando o meu abismo sobre 
o grande xiu!

Rosto, Clareira e Desmaio. Miguel-Manso. Douda Correria. 

domingo, 6 de maio de 2018

Um poema de Persianas - Miguel-Manso

se agitares o livro e o deixares sobre o tampo
as letras cairão devagar sobre as figuras

Persianas. Lisboa: Tinta-da-China, 2015.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Um poema de Miguel-Manso

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,


cercado de hábitos
e de conteúdos que nada e que tanto
predizem

cascalho que o íntimo da casa
importa para o malquerido usufruto
porcelanas que reluzem a cada almoço
aquém e além persianas

coisas
que multiplicam até ao sufoco
e pior que coisas a qualidade que têm
que lhes pomos

escrevo nomeando tudo
e tudo transcende o nome que tem
tudo alarga de inominável
brilho

E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua
alcatroada

o mesmo alvor mas filtrado têm
os matizes domiciliados as translucidezes
de que me sirvo para inteirar
o esqueleto confuso destes versos

triste — e clemente — quem neles pousa
agora o olhar.


Miguel-Manso. Persianas. Lisboa: Tinta da China, 2015.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

campéstico, paisagens e interiores - Miguel-Manso

7

à noite quando a lua repousa no ombro
mais chegado à melancolia

a chávena mal se distingue no parapeito
e a peste dos meus versos alastra lá ao fundo
numa abandonada escrivaninha

sou o escravo doido que repousa do idioma
entregando-se ao inaparente ruído dos insectos
e de mãos tombadas sobre o vazio

vela o descomedido trauma terreal

Miguel-Manso. Persianas. Lisboa, Tinta-da-China, 2015.
Retirado daqui.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Um poema de Miguel-Manso

paraste numa rua decaída
como o Sol
o abatimento de bengala tornando
devagar a caminho de casa

única cedência da alegria:
o perfume das laranjeiras o complô
acriançado dos pássaros o branco fabuloso
desses muros – se afastasses da ideia
o aperto que arquitectam –

alguém te chamou, olhaste
saudou-te com um entusiasmo forçado e no fim
trocou o teu nome pelo nome do teu pai
(eu só te conheci a mãe)

não corrigiste esse nem nenhum
outro desacerto
(o mais premente e perturbador de todos
visto assim não tem cura)

e seguiste à sombra do teu morto
ainda mais calado


Miguel-Manso, Supremo 16/70, Artefacto, 2013.

Retirado daqui.

domingo, 9 de junho de 2013

MÓBIL E CADERNO DA TERRA - Miguel-Manso


o arcebispo de Armagh calculou em 1650 
que o mundo começou no ano lacónico de 4004 a. C. 
no dia 26 de Outubro às 9 horas da manhã 

(a 10 de Novembro 
menos de um mês depois 
dá‑se a expulsão do Paraíso) 

como se tivessem disposto salsa ou hortelã num vaso 
ou feito explodir a estação pura de dentro da era 
grotesca dos patriarcas 

nessa manhã séculos depois 
Erwin Schrödinger bebia da boca de um pássaro um oceano novo 
colapso chamemos‑lhe assim de um abacate verde‑abacate 
poisado na fruteira da cozinha muitos metros afastada 
do início dos tempos 

olho a Terra, vazia, incomum 

fique o leitor apenas pelas assunções do poema 
único método de mover o desusado tecido da realidade 
sumo de um cacho amargo a minha grande surpresa 
cacho de teóricas uvas uma maçã de asserto quântico 
polpa, dígito, osso malar 

primeiríssimo calendário 

in Tojo, Relógio d'Água, 2013 
(Uma antologia de poemas de Miguel-Manso)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Para desenterrar o grande cepo do poema e voltar a enterrá-lo - Miguel-Manso


aquele que caminha de um lugar que não sabe
a um lugar que não pode, meteu agora pela travessa dos arcanos
das difíceis coisas mínimas que enxameiam sob a terra
e por cima dos joelhos

mudará de arredores com a leve motricidade vocabular
até lhe arderem todos os aspectos, as visões
e o prodígio se transforme em préstimo elucidário de nenhuma
sabemos já, alegria ou valimento

está certo: um erro em muitos erros deixará o ledor (quem é?)
boquiaberto

provado parentesco o nosso
na verdejante paisagem do exuberar mental: um escreve escuro
montanhoso; o outro repara, se repara, nesse nexo
solitário e da linhagem de Anthero

pouco chic, hoje, este infortúnio dos versos
o diabo
da ideia, sinuosamente entrecortado de proveitos poucos
onde a mais teclada carne não é mais que o corpo
velho chamado Humanidade

por ora, todavia, o destapar dos detalhes não supera 
a rotativa duração que nos transporta, nem esta monografia
conversa com a grandíloqua divindade, conserva
o gesto que se dirige ao gigantesco assunto de que nunca
ouviremos falar

vou dizer-vos
eu estava em deslocação pela noite do metro, olhando
o meu reflexo no vidro, atravessando aquele medo
havia, por cima e em volta, essa mesma claridade que nos engana
quotidianamente

então eu via o meu reflexo, parado, e para lá do meu parado
reflexo passavam num relâmpago sucessivo e baço
as paredes do sentido (o túnel) riscadas de coloridas tubagens
ora

eu estava parado dentro do movimento vasto do engano
lembrei-me de sonhar que podia ser tudo aquilo verdade
a associada circunstância de eu estar morto, de eu estar vivo
de ser esse o exacto, irresoluto, lugar da poesia

Mais aqui.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Um poema de Miguel-Manso


28


   No jornal: mulher esteve nove anos morta em casa. Passou quase uma década entre o momento íntimo dessa morte e o maior ou menor espavento civil (e/ou religioso) que a autorizou. A morte, que acontece sempre aos outros, precisa, idealmente, da exibição do seu resíduo: o corpo consumado. Ou então de um vestígio, notícia, um boato que seja. Se ninguém acolheu a morte dessa mulher, então ela só morreu (tornou a existir) de facto, no dia em que a encontraram no chão do seu apartamento. Mais do que uma utopia, ou um hiato (uma hiatopia) o lugar e o tempo onde e em que ela desexistiu (apurados e admitidos postumamente) têm a dimensão do mito. E eis que o vocábulo apartamento atingiu ali a sua literalidade. Mas de nada, para nada, por nada e em tempo nenhum



Um Lugar a Menos, Edição de Autor, 2012.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Miguel-Manso: Um poema



BALADA DA RUA DAMASCENO MONTEIRO


ardia de amor pela casa

numa confusão de silêncios ou

dizendo de outro modo


afundava-se numa líquida recordação cardíaca


ocultos pólen pólvora fósforos

a má reputação dos dedos

paixão cartografada remota

toponímia dos enganos


braço a braço crescia alto

o incêndio no interior do peito

deliberado ritual de lâminas e pele

a transparente certeza

da cicatriz


mas ardia de amor pela casa soturna

silêncio dando para o saguão luz muitíssimo

extinta por sobre a larga extensão destruída


morrer, principalmente de amor, é

uma compendiosa tarefa doméstica


dentro do coração antigo

serei breve


Miguel-Manso, Contra a Manhã Burra, Lisboa: Mariposa Azual, Maio de 2009

Retirado do blog de poesia As Folhas Ardem