“Books are finite, sexual encounters are finite, but the desire to read and to fuck is infinite; it surpasses our own deaths, our fears, our hopes for peace.” ― Roberto Bolaño
quinta-feira, 3 de janeiro de 2019
Rosto, Clareira e Desmaio - Miguel-Manso
suspenso desde o hangar das ideias, a vacilar postura abaixo
até à natureza,
até ao bosque do coração, por exemplo,
até, por exemplo, ao músculo da fala, monstruoso,
por exemplo, até à pele transpirada onde os insectos famintos
vêm beber.
Tudo o mais que povoa e opera cé em baixo,
na natureza humana,
é vagamente transmitido por este nervo, e quando não,
chamamos de síncope vagal ao fenómeno.
Desmaio, maduro desmaio, abertura
ao Universo,
Secreção de sentenças e oráculos ponderados nos hangares,
depois convertidos em angústias e esgares.
É uma inclinação sem ponto fixo.
Uma infecção a partir da qual.
Tudo o que sai do homem é supersticiosamente impuro
- ó arame, diz-me quem te enrolou farpado? -
e deverá ser purgado no excesso ou, no meu caso,
no resfriado que se apanha no vento de feiticeiros e nas coisas
teleguiadas.
Operou em mim não sei que inclinação
para o mistério. Fui estrangeiro de tudo menos da velocidade
com que escrevi a palavra do bosque
e depois a esqueci, lançando o meu abismo sobre
o grande xiu!
Rosto, Clareira e Desmaio. Miguel-Manso. Douda Correria.
domingo, 6 de maio de 2018
Um poema de Persianas - Miguel-Manso
as letras cairão devagar sobre as figuras
Persianas. Lisboa: Tinta-da-China, 2015.
domingo, 23 de julho de 2017
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Um poema de Miguel-Manso
Contente com o seu lar,
cercado de hábitos
e de conteúdos que nada e que tanto
predizem
cascalho que o íntimo da casa
importa para o malquerido usufruto
porcelanas que reluzem a cada almoço
aquém e além persianas
coisas
que multiplicam até ao sufoco
e pior que coisas a qualidade que têm
que lhes pomos
escrevo nomeando tudo
e tudo transcende o nome que tem
tudo alarga de inominável
brilho
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua alcatroada
o mesmo alvor mas filtrado têm
os matizes domiciliados as translucidezes
de que me sirvo para inteirar
o esqueleto confuso destes versos
triste — e clemente — quem neles pousa
agora o olhar.
Miguel-Manso. Persianas. Lisboa: Tinta da China, 2015.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
campéstico, paisagens e interiores - Miguel-Manso
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Um poema de Miguel-Manso
como o Sol
o abatimento de bengala tornando
devagar a caminho de casa
única cedência da alegria:
o perfume das laranjeiras o complô
acriançado dos pássaros o branco fabuloso
desses muros – se afastasses da ideia
o aperto que arquitectam –
alguém te chamou, olhaste
saudou-te com um entusiasmo forçado e no fim
trocou o teu nome pelo nome do teu pai
(eu só te conheci a mãe)
não corrigiste esse nem nenhum
outro desacerto
(o mais premente e perturbador de todos
visto assim não tem cura)
e seguiste à sombra do teu morto
ainda mais calado
domingo, 9 de junho de 2013
MÓBIL E CADERNO DA TERRA - Miguel-Manso
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Para desenterrar o grande cepo do poema e voltar a enterrá-lo - Miguel-Manso
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Um poema de Miguel-Manso
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Miguel-Manso: Um poema

BALADA DA RUA DAMASCENO MONTEIRO
ardia de amor pela casa
numa confusão de silêncios ou
dizendo de outro modo
afundava-se numa líquida recordação cardíaca
ocultos pólen pólvora fósforos
a má reputação dos dedos
paixão cartografada remota
toponímia dos enganos
braço a braço crescia alto
o incêndio no interior do peito
deliberado ritual de lâminas e pele
a transparente certeza
da cicatriz
mas ardia de amor pela casa soturna
silêncio dando para o saguão luz muitíssimo
extinta por sobre a larga extensão destruída
morrer, principalmente de amor, é
uma compendiosa tarefa doméstica
dentro do coração antigo
serei breve
Miguel-Manso, Contra a Manhã Burra, Lisboa: Mariposa Azual, Maio de 2009
Retirado do blog de poesia As Folhas Ardem