“Books are finite, sexual encounters are finite, but the desire to read and to fuck is infinite; it surpasses our own deaths, our fears, our hopes for peace.” ― Roberto Bolaño
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sábado, 17 de novembro de 2018
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
TW, Dragon Country - Gastão Cruz
Acreditávamos no tempo quando
o país do dragão era um espectáculo
de fronteira inviolável, e a angústia
não saía de dentro do cenário, e a
emoção era um lugar fictício:
acreditar no
tempo o erro mais terrível.
Gastão Cruz. Fogo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2013.
o país do dragão era um espectáculo
de fronteira inviolável, e a angústia
não saía de dentro do cenário, e a
emoção era um lugar fictício:
acreditar no
tempo o erro mais terrível.
Gastão Cruz. Fogo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2013.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Inversão de Marcha
Às vezes é só isto.
Querer o controlo absoluto
do destino e não conseguir.
Manobras diversas com um carro
e ter que subir a merda do passeio
para evitar bater na carrinha ao lado.
Quem disse que isto tudo é fácil?
Ninguém, eu sei.
Um gajo aguenta-se, diz umas asneiras
segue em frente. E é bom verificar sempre
se a suspensão está boa.
É necessário voltar a pegar no carro e
nunca se sabe quando se perde o controlo.
José Duarte
Querer o controlo absoluto
do destino e não conseguir.
Manobras diversas com um carro
e ter que subir a merda do passeio
para evitar bater na carrinha ao lado.
Quem disse que isto tudo é fácil?
Ninguém, eu sei.
Um gajo aguenta-se, diz umas asneiras
segue em frente. E é bom verificar sempre
se a suspensão está boa.
É necessário voltar a pegar no carro e
nunca se sabe quando se perde o controlo.
José Duarte
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
A luz de Lisboa - Nuno Júdice
A luz atravessa o quarto entre
as duas janelas, e é sempre a mesma luz, embora
de um lado seja o poente - onde está o sol, agora - e do outro
o nascente - onde o sol já esteve. No quarto
juntam-se poente e nascente, e é esta
luz que confunde o olhar, que não sabe em que
hora se situa a luz primeira. Então, olho a linha
que percorre o espaço entre as duas janelas,
como se não tivesse princípio nem fim; e
o que faço é puxar essa linha para dentro
do quarto, e enrolá-la, como se me
pudesse servir dela para atar as duas extremidades
do dia ao meio-dia, e deixar que o tempo fique
parado entre duas janelas, a poente
e a nascente, até que o fio se volte
a desenrolar, e tudo
recomece.
A Matéria do Poema, Dom Quixote, 2008.
as duas janelas, e é sempre a mesma luz, embora
de um lado seja o poente - onde está o sol, agora - e do outro
o nascente - onde o sol já esteve. No quarto
juntam-se poente e nascente, e é esta
luz que confunde o olhar, que não sabe em que
hora se situa a luz primeira. Então, olho a linha
que percorre o espaço entre as duas janelas,
como se não tivesse princípio nem fim; e
o que faço é puxar essa linha para dentro
do quarto, e enrolá-la, como se me
pudesse servir dela para atar as duas extremidades
do dia ao meio-dia, e deixar que o tempo fique
parado entre duas janelas, a poente
e a nascente, até que o fio se volte
a desenrolar, e tudo
recomece.
A Matéria do Poema, Dom Quixote, 2008.
domingo, 9 de junho de 2013
MÓBIL E CADERNO DA TERRA - Miguel-Manso
o arcebispo de Armagh calculou em 1650
que o mundo começou no ano lacónico de 4004 a. C.
no dia 26 de Outubro às 9 horas da manhã
(a 10 de Novembro
menos de um mês depois
dá‑se a expulsão do Paraíso)
como se tivessem disposto salsa ou hortelã num vaso
ou feito explodir a estação pura de dentro da era
grotesca dos patriarcas
nessa manhã séculos depois
Erwin Schrödinger bebia da boca de um pássaro um oceano novo
colapso chamemos‑lhe assim de um abacate verde‑abacate
poisado na fruteira da cozinha muitos metros afastada
do início dos tempos
olho a Terra, vazia, incomum
fique o leitor apenas pelas assunções do poema
único método de mover o desusado tecido da realidade
sumo de um cacho amargo a minha grande surpresa
cacho de teóricas uvas uma maçã de asserto quântico
polpa, dígito, osso malar
primeiríssimo calendário
in Tojo, Relógio d'Água, 2013
(Uma antologia de poemas de Miguel-Manso)
sexta-feira, 29 de março de 2013
Um poema de Helga Moreira
Canta, embebeda-se pelos bares
ou não se embebeda e só o luar
guarda na mala
ou não canta e tece
pequenos vestígios de fogo.
Recorda macieiras, papoilas,
alguma poeira imperceptível,
febres de verão.
in Poesia Digital: 7 poetas dos anos 80, Campo das Letras, 2002
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Do livro II: 'Todos os homens são uma noite'
XXII
Ahab parecia pertencer-me.
a solitária Baleia Branca,
Moby Dick, suplanta qualquer
outro aspecto da vida
o baleeiro quer por timidez
grandeza a bordo,
a História Natural afirma que
a experiência, a crença, a «sede de sangue»
continua a viver na
memória de muitos pescadores. o poder
quando
submerso continuava a ser
um enigma. É coisa bem conhecida para os
americanos e ingleses, há anos para o homem
a Baleia Branca imortal matéria sólida
desfazendo as baleeiras. Moby Dick cortou
a perna de Ahab
a metade tornava-se granada
do seu coração, dor, segredo.
A loucura humana é profunda:
todas as verdades são
abissais. Os deuses com os seus
uivos pensavam
apenas em vingança implacável,
sobrenatural. encontrar a baleia
a mais mortífera das pragas
Dias de Tempestade, Edição de Autor, 2012
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Um poema de Daniel Jonas
ELEMENTÁRIO
O verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que pode ser dito a quem
se não quer dizer
isto, claro, partindo do princípio
de que há um sentido das palavras,
verdadeiro, um poema e um
a quem se queira dizer.
Daniel Jonas
O verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em não falar do que não pode ser dito a quem
se quer dizer
ou o verdadeiro sentido das palavras
é que o poema consiste
em falar do que pode ser dito a quem
se não quer dizer
isto, claro, partindo do princípio
de que há um sentido das palavras,
verdadeiro, um poema e um
a quem se queira dizer.
Daniel Jonas
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Janeiro - Um poema de Vasco Gato
É esta a completude dos dias
Quando se reúnem sobre a cidade
Os sossegos da nossa idade já meiga.
São estas as palavras que ficam
Desde o interior do nosso mais antigo nome.
É o inverno aberto de janeiro
Com as árvores despidas e o frio azul,
É o ano que começa no tempo que é nada,
Os bolsos que se enchem de mãos,
As casas que parecem mais juntas.
Por esta altura estarão a nascer
As horas mais felizes das nossas vidas
- bebemos chá escutando o lume
E amanhã será um dia a menos,
Um outro som acrescentando à voz,
Um abraço fechando-se até ao amor.
Vasco Gato, in Um Mover de Mão, Assírio e Alvim, 2000
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
November for Beginners - um poema de RIta Dove
Snow would be the easy
way out—that softening
sky like a sigh of relief
at finally being allowed
to yield. No dice.
We stack twigs for burning
in glistening patches
but the rain won’t give.
So we wait, breeding
mood, making music
of decline. We sit down
in the smell of the past
and rise in a light
that is already leaving.
We ache in secret,
memorizing
a gloomy line
or two of German.
When spring comes
we promise to act
the fool. Pour,
rain! Sail, wind,
with your cargo of zithers!
November 1981
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Rua do Século, 79 - Frederico Lourenço
Os gradeamentos das janelas
negam a quem as contempla da rua
qualquer sugestão de vida
a ser vivida por trás das grades.
Os caixilhos em ferro forjado
sugerem locutórios de um convento
da mais ascética austeridade,
como se o espaço (cujo acesso
as grades peremptoriamente vedam)
fosse votado por inteiro a extremos
exacerbados de misticismo e de penitência.
Mas também se pressentem salões escuros,
onde paira sempre o cheiro fresco a encerado,
ou o perfume de rosas e noz moscada;
paredes revestidas de damasco,
cobertas de grandes telas,
paisagens campestres e naturezas mortas.
Medalhões de talha dourada, segurados
por fitas de seda listrada a duas cores;
silhuetas de damas coroadas de peruca,
fantasmas da corte da Rainha Louca,
imóveis nas suas molduras de tartaruga e charão.
negam a quem as contempla da rua
qualquer sugestão de vida
a ser vivida por trás das grades.
Os caixilhos em ferro forjado
sugerem locutórios de um convento
da mais ascética austeridade,
como se o espaço (cujo acesso
as grades peremptoriamente vedam)
fosse votado por inteiro a extremos
exacerbados de misticismo e de penitência.
Mas também se pressentem salões escuros,
onde paira sempre o cheiro fresco a encerado,
ou o perfume de rosas e noz moscada;
paredes revestidas de damasco,
cobertas de grandes telas,
paisagens campestres e naturezas mortas.
Medalhões de talha dourada, segurados
por fitas de seda listrada a duas cores;
silhuetas de damas coroadas de peruca,
fantasmas da corte da Rainha Louca,
imóveis nas suas molduras de tartaruga e charão.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
«Sê lenha» - Ana Marques Gastão
Enquanto a faca corta o alimento,
a boca atrasa o corte, o paladar,
a sorte, a criança devora o que tens
e a vontade pede-te: «sê lenha».
Anda, suporta teu corpo de ferida
cicatriz ou nome, és esqueleto bravio
carne e voragem, sino que ressoa,
te ensurdece e desmorona.
Do mar, a terra, da terra a água,
do fogo, o ar, só é exterior o interior
que se evapora em solução iodada
e te abafa no fumo metálico e molda
uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,
vê, escuta o som impaciente da lenha
afundada no sal, conta a história,
repete a única história que te faz viver.
In Adornos, 2011.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Explicação da Eternidade - José Luís Peixoto
devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.
os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
foste eterna até ao fim.
José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.
os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
foste eterna até ao fim.
José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Um poema exemplar - Sophia Andresen
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Um poema exemplar: em
linhas como:
«Cidade, rumor e vaivém sem
paz das ruas,
Ó vida suja, hostil,
inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e
existem praias nuas,
Montanhas sem nome e
planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e
apenas vejo
Os muros e as paredes e não
vejo
Nem o crescer do mar nem o
mudar das luas.
Saber que tomas em ti a
minha vida
E que arrastas pela sombra
das paredes
A minha alma que fora
prometida
Às ondas brancas e às
florestas verdes»
(Sophia Andresen
«Cidade», Livro Sexto)
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