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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Fernando Guerreiro - Imagens Roubadas

3. Somos assim conduzidos do noli me tangere à tuché (Lacan).
     Deste ponto de vista, talvez todo o filme se possa conter no raccord que liga o fim com o princípio: o primeiro plano em queo Sr. Chow toca na campainha da porta e a mão que enche oburaco no templo de Angkor.
      Nesse segundo orifício vemos o emblema/ hieróglifo da forma (do filme): o segredo que preenche fertilmente o vazio da forma, misturando, confundindo géneros e registos – o humano, o mineral e o vegetal –, e constrói, a partir dele, uma forma ramificada e arborescente, rizomática e orgânica. Uma floresta (mundo) em diminuitivo.
    Talvez o amor (o cinema) seja outro nome para um acaso feliz: um vazio cheio ou uma coincidência objectiva.

Noites na Enfermaria (parte digital de Imagens Roubadas). Lisboa: Enfermaria 6, 2017.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Os últimos frutos - Fernando Guerreiro


Que os últimos frutos sequem, nem por isso deixam de
                                             ser os mais apetecidos.
As próprias estações confundem-se num frasco de
                                                          compota
de cujo fundo inúmeras gerações parecem ter saído.
Leva-se a mão ao fruto e um ardor consome-se na boca –
álcool de que o sentimento impróprio decai: enxuto,
                                                            ressequido.
Ah, deixa-me beijar a tua boca – até que do fundo
de um sabor a mosto eu me sinta recluso e excluído.
Liofilizados, antes da estação, agora caem os frutos.
Uns dão a luz ao dia, outros, à morte, um sentido
                                                     inapetecido.

Poesia Digital. 7 Poetas dos Anos 80. Campos das Letras, 2002.

Retirado daqui.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Os últimos frutos - Fernando Guerreiro


Que os últimos frutos sequem, nem por isso deixam de
                                             ser os mais apetecidos.
As próprias estações confundem-se num frasco de
                                                          compota
de cujo fundo inúmeras gerações parecem ter saído.
Leva-se a mão ao fruto e um ardor consome-se na boca –
álcool de que o sentimento impróprio decai: enxuto,
                                                            ressequido.
Ah, deixa-me beijar a tua boca – até que do fundo
de um sabor a mosto eu me sinta recluso e excluído.
Liofilizados, antes da estação, agora caem os frutos.
Uns dão a luz ao dia, outros, à morte, um sentido
                                                     inapetecido.




fernando guerreiro
poesia digital
7 poetas dos anos 80
campo das letras
2002