“Books are finite, sexual encounters are finite, but the desire to read and to fuck is infinite; it surpasses our own deaths, our fears, our hopes for peace.” ― Roberto Bolaño
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
A BALADA DE ANTOINE & FROSTY - Tatiana Faia
de chapéu posto
quando eles se arrastaram longamente pela linha
com o ímpeto com que
milhas e milhas de carruagens vazias
entraram na estação
estudei com cuidado e olhos míopes
e sem qualquer erudição
o horário em frente do meu nariz
sei que não estou viva
dentro da função desta espera
a que rua belo chamou
tempo detergente
e eu não considerei
coisas óbvias
como
como é ser tu
ou o meu desprezo
pelos jogadores
ou concessões dos meus amigos
às convenções sociais
a posições mais confortáveis
empregos melhores
em termos de progressão de carreira
os gestos neutros de todos os dias
como se fossem um sentido
Tatiana Faia. Um Quarto em Atenas. Lisboa: Tinta-da-China, 2018.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Ben Zhakai - Tatiana Faia
no piso subterrâneo de um hotel
um homem e uma mulher
deixam-se ir ficando para a privacidade
suburbana de um parque de estacionamento
como quem joga xadrez
sacrificando peça após peça
com uma atenção metódica
indício talvez de um punhado
de critérios mais sábios
ben zakhai negociou habilmente sobre jerusalém
preparou em desespero o render da cidade
ele e o imperador tinham conversas de planos
entretiveram com tacto grave
discussões de sucessivas estratégias
cada um deles reclamava ainda outra coisa
já que há tudo a perder mais vale
querer cada vez mais, imagina que
uma destruição esconde sempre
outra destruição e a destruição seguinte outra
até não sobrar nenhuma casa
tu daqui vais para roma e eu sabe deus
dentro de nenhuma das casas nesta cidade
contidas como soldados demasiado jovens
escondendo-se ao perceber o primeiro dever do medo,
o de se enterrarem no refúgio circular das muralhas
o nosso comércio o discreto barulho
das nossas mulheres no seu ir e vir
coisa calada de com os filhos pelas mãos
o recolhimento sossegado pela tarde
da sombra dos nossos pátios mais interiores
o sussurrar na fala grave de homens
entretidos em conversas de negócios
nada, não há aqui metáfora nenhuma
é possível
se assim quiseres
continuar a partir tudo indefinidamente
tudo pode ser minuciosamente destruído
a ideia de um nó tão fundo que só isso explique
uma cidade inteira calcinada
para que a mesma cidade possa recomeçar
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Lugano, Tatiana Faia

JANO BIFRONTE
alinhados esperamos o primeiro
o perecível fio da manhã com os seus guizos
essa luz de cinza e azul que no chão
decidirá dos nossos rostos esperando partir
para a promessa da manhã que suave se inclina
e como acontece no poema de dylan thomas
temos estrelas tatuadas nos cotovelos e nos pés
.
e tu dirias não sei porquê dias que das moedas têm as duplas faces
onde com tanta concisão nos iluminamos e apagamos sem
termos envelhecido nos espelhos por onde seguimos cantando
e eu sei tu tê-lo-ias dito como se partilhássemos o mesmo chão
e aos poucos fôssemos sendo o que todos os homens são
.
semelhantes àquele deus bifronte que sempre apontando
em imperfeitos gestos duas coisas tão opostas
inspira em nós um amor pelas coisas tão dilacerado