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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A BALADA DE ANTOINE & FROSTY - Tatiana Faia

esperei pela chuva
de chapéu posto
quando eles se arrastaram longamente pela linha
com o ímpeto com que
milhas e milhas de carruagens vazias
entraram na estação
estudei com cuidado e olhos míopes 
e sem qualquer erudição
o horário em frente do meu nariz
sei que não estou viva
dentro da função desta espera
a que rua belo chamou
tempo detergente
e eu não considerei
coisas óbvias
como
como é ser tu
ou o meu desprezo
pelos jogadores 
ou concessões dos meus amigos
às convenções sociais
a posições mais confortáveis
empregos melhores
em termos de progressão de carreira
os gestos neutros de todos os dias
como se fossem um sentido 

Tatiana Faia. Um Quarto em Atenas. Lisboa: Tinta-da-China, 2018.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ben Zhakai - Tatiana Faia


três da manhã em budapeste
no piso subterrâneo de um hotel
um homem e uma mulher
deixam-se ir ficando para a privacidade
suburbana de um parque de estacionamento 
dentro do carro conversam
como quem joga xadrez
sacrificando peça após peça
com uma atenção metódica
indício talvez de um punhado
de critérios mais sábios 
eles lembram-te de outra história de rabis
ben zakhai negociou habilmente sobre jerusalém
preparou em desespero o render da cidade
ele e o imperador tinham conversas de planos
entretiveram com tacto grave
discussões de sucessivas estratégias 
mas por enigmas desencontrados
cada um deles reclamava ainda outra coisa 
já que há tudo a perder mais vale
querer cada vez mais, imagina que 
ben zakhai talvez tenha dito a vespasiano
uma destruição esconde sempre
outra destruição e a destruição seguinte outra
até não sobrar nenhuma casa
tu daqui vais para roma e eu sabe deus 
e não há-de haver já nada
dentro de nenhuma das casas nesta cidade
contidas como soldados demasiado jovens
escondendo-se ao perceber o primeiro dever do medo,
o de se enterrarem no refúgio circular das muralhas 
nada das coisas que compõem uma cidade
o nosso comércio o discreto barulho
das nossas mulheres no seu ir e vir
coisa calada de com os filhos pelas mãos 
as intactas paredes das nossas casas
o recolhimento sossegado pela tarde
da sombra dos nossos pátios mais interiores
o sussurrar na fala grave de homens
entretidos em conversas de negócios
nada, não há aqui metáfora nenhuma 
começando por uma coisa qualquer
é possível
se assim quiseres
continuar a partir tudo indefinidamente
tudo pode ser minuciosamente destruído 
contra esta mais espessa noite
a ideia de um nó tão fundo que só isso explique
uma cidade inteira calcinada
para que a mesma cidade possa recomeçar
Teatro de Rua, do lado esquerdo, 2013
Retirado daqui

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Lugano, Tatiana Faia


JANO BIFRONTE

alinhados esperamos o primeiro

o perecível fio da manhã com os seus guizos

essa luz de cinza e azul que no chão

decidirá dos nossos rostos esperando partir

para a promessa da manhã que suave se inclina

e como acontece no poema de dylan thomas

temos estrelas tatuadas nos cotovelos e nos pés

.

e tu dirias não sei porquê dias que das moedas têm as duplas faces

onde com tanta concisão nos iluminamos e apagamos sem

termos envelhecido nos espelhos por onde seguimos cantando

e eu sei tu tê-lo-ias dito como se partilhássemos o mesmo chão

e aos poucos fôssemos sendo o que todos os homens são

.

semelhantes àquele deus bifronte que sempre apontando

em imperfeitos gestos duas coisas tão opostas

inspira em nós um amor pelas coisas tão dilacerado