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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

De Cara a la Pared

foi talvez a nossa última canção.

oiço ainda os corpos a vincar a noite,
um campo minado de corações tristes
explodindo o rosto na parede.


muitas músicas depois
quando as paredes eram já outras
e nas caras se perdiam novos nomes


voltei a ela: ficara-me sempre, afinal,
um terrível verso solitário
e a culpa de a ter levado


a um coração onde as canções
morreriam de frio.


Renata Correia Botelho. Small Song. Averno, 2010.

terça-feira, 6 de março de 2012

Deus nos Lírios

para a minha mãe

sinto deus, todas as noites, nos lírios
de Monet. olham por mim,
por este sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.

pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.

Renata Correia Botelho, Small Song, 2010, Averno.