sábado, 16 de abril de 2016

Nocturno para Varsóvia - Filipa Leal

Gostava de te convidar para minha casa,
como aos amigos nos velhos tempos.
Abria uma garrafa de vinho e contava-te de quando era pequeno
e tu contavas-me de como te corre o emprego, o amor.
Vemo-nos todos os dias e falamos tão pouco.
Estendo-te a mão e às vezes dás-me uma moeda,
mas falamos tão pouco.
Gostava de te convidar para minha casa
mas não tenho casa, vai ter de ficar para a próxima.


Filipa Leal. Vem à Quinta-feira. Lisboa: Assírio & Alvim, 2016.


terça-feira, 12 de abril de 2016

Explicação da Ausência - Daniel Faria

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido 
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu 
E a espera é não acontecer - fosse abertura - 
E a saudade é tudo ser igual. 

Daniel Faria. Explicação das Árvores e de Outros Animais. 1998.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Van Gogh, a orelha e os corvos - António Amaral Tavares

Cortar uma orelha é coisa pouca
para quem tanto ouve pancadas de luz.
E talvez à luz tenha entregue afinal
em demasia o lodo que vertia em
cada quadro. Um campo de trigo
devassado por corvos faz-nos perguntar
que morada ocuparão eles findo o verão
esse vocabulário mínimo de morte.

E sábio como era apontou a arma.

António Amaral Tavares. Telhados de Vidro. Coimbra: Palimage, 2012. 

Retirado daqui.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Escuro - Rui Pires Cabral

Pergunto-me desde quando 
deixou de haver futuro 
nas janelas.

Janeiro dói nos olhos
como areia
e tu e eu estamos para sempre
sentados às escuras 
no Verão.