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terça-feira, 17 de abril de 2018

Poesia - António Carlos Cortez

Um estrato   um veio   uma dama
Uma ave    uma nuvem    outra vida

Rebentação solar e escura tua voz dubitativa
Caligrafia intensa    Essa carne rediviva

António Carlos Cortez. A Dor Concreta. Lisboa: Tinta-da-China, 2016.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Mortos-Vivos - António Carlos Cortez


  • E não temos palavras para ser
  • Regressamos em silêncio aos dormitórios
  • No olhar trazemos o vazio
  • e dentro do vazio somos carnívoros
  • Saímos para a noite embriagados
  • O rosto que temos não nos chega
  • Os olhares vítreos são mesmo de vidro
  • com suas lâminas compramos o prazer
  • Não temos palavras para ver
  • somos corvos e chacais e somos cobras
  • E um rio tumular percorre os corpos:
  • o grito de Munch o rio de lama
  • em peitos tatuados    em sexos
  • esculpidos    De piercings na língua
  • os olhos injectados  nós somos
  • tubarões   nós somos mortos-vivos
Retirado daqui.

terça-feira, 26 de março de 2013

António Carlos Cortez - Arte Poética e Não

A poesia é o signo extremado. Estremecendo, plástica, a palavra rasga. Contra a opacidade dos dias, a cristalização da frase, límpida, com seus sintagmas oferecendo ao lado de lá da tela a história original de um mundo. Estremecendo, o leitor sobrevive e insiste em reler passagens que, de algum modo, o penetram por imagens, flashes. Assim, contra os actos não há argumentos – e a poesia, se construída em verdade, produz novas formas de perceber as idades de que é feita, afinal, a nossa vida: metro, verso, estrofe, cadência rítmica, corpo a corpo, combate entre vida e morte. Extremidades da linha de fogo.

in Linha de Fogo, Licorne, 2012

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Variação - António Carlos Cortez

Regressas sempre aos versos
A arte torpe das palavras
A fala o fingimento de verdade
A arte a canção dos mais pobres
de todos os sobreviventes
Calas quanto sabes mas escreves
Por metáforas e símbolos
as ruínas do corpo e do palato
essa hostil lâmpada
sabes que corremos como cortina
escura o sentido literal da palavra
Arda no siêncio com que
nos afastamos ou morremos
a palavra da esperança
No longo silêncio que se arrasta
nenhuma flor nos basta


Depois de Dezembro, Licorne, 2010