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quarta-feira, 18 de maio de 2016

Mortos-Vivos - António Carlos Cortez


  • E não temos palavras para ser
  • Regressamos em silêncio aos dormitórios
  • No olhar trazemos o vazio
  • e dentro do vazio somos carnívoros
  • Saímos para a noite embriagados
  • O rosto que temos não nos chega
  • Os olhares vítreos são mesmo de vidro
  • com suas lâminas compramos o prazer
  • Não temos palavras para ver
  • somos corvos e chacais e somos cobras
  • E um rio tumular percorre os corpos:
  • o grito de Munch o rio de lama
  • em peitos tatuados    em sexos
  • esculpidos    De piercings na língua
  • os olhos injectados  nós somos
  • tubarões   nós somos mortos-vivos
Retirado daqui.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A Cidade Depois - Pedro Paixão


Tenho medo de viajar, uma fobia que herdei da minha mãe e se agrava com a idade. Não de andar de avião ou de qualquer outro meio de transporte, mas de encontrar o que não conheço, ou, pior, o que deixou de ser o que era e se modificou. Depois de conseguir superar esse medo volto aos mesmos sítios insistentemente: a mesma cidade, o mesmo hotel, o mesmo quarto no hotel, de preferência também as mesmas pessoas, o mesmo ar, o mesmo cheiro, se fosse possível as mesmas palavras. Tenho medo de tudo o que não conheço e por isso sinto-me na obrigação de conhecer o mais possível, um paradoxo doloroso. Antes de partir numa viagem para um lugar onde nunca estive passo dias e noites à beira do pânico.


Pedro Paixão, A Cidade Depois. Disponível aqui