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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Um poema de Elisabete Marques

BATER A PEDRA, BATER
o chão. Perpendicular

a perna do homem, fio-de-prumo,
constituindo medida e
sustento do gesto. O homem calça-terra

agora está de joelhos.
A gota do rosto
deslizando como
mínimo mar quase em queda.
Sua boca toca a lata precisa de cócacóla.

E os passantes desajeitados
acertam batentes tacões sobre o tosco fóssil desenhado.
 
Cisco. Lisboa: Mariposa Azual, 2014.

terça-feira, 21 de março de 2017

Um poema de Marta Bernardes

Ninguém sabe ao certo
Como é que o tempo caminha
Se é como a areia do deserto
Ou se é em forma de linha.

Se nos atravessa como uma flecha
Ou se nós é que o fazemos existir
Se rodopia, se abre e fecha…
Um círculo que vive a ir e a vir.

Se é como nenúfares
Que podemos saltar
Para trás e para a frente

Ou se é como o vento
Que não vemos
Mas levanta os cabelos à gente.

Marta Bernardes. Ícaro. Lisboa: Mariposa Azual, 2016.

domingo, 25 de setembro de 2016

Nuno Moura

é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.
 
seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.
 
Somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.
 
só em receitas publicitárias com telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.
 
portugal é um país de poetas ricos.
 
a poesia dá dinheiro a portugal.

Nuno Moura. Nova Asmática Portuguesa. Mariposa Azual, 1999.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Um poema de Tiago Gomes

Dirty Realism

Todos os dias
Todos os dias
Todos os dias
Todos os dias
O último de todos os dias.
Luta livre.
Arrumar o dia.
As mochilas dos miúdos 
o jantar e a Tv. 
Todos arrumados
com socos na barriga.

De Auto-Ajuda. Lisboa: Mariposa Azual, 2009.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Um poema de Marta Bernardes

Ninguém sabe ao certo
Como é que o tempo caminha
Se é como a areia do deserto
Ou se é em forma de linha.

Se nos atravessa como uma flecha
Ou se nós é que o fazemos existir
Se rodopia, se abre e fecha…
Um círculo que vive a ir e a vir.

Se é como nenúfares
Que podemos saltar
Para trás e para a frente

Ou se é como o vento
Que não vemos
Mas levanta os cabelos à gente.

Marta Bernardes. Ícaro. Lisboa: Mariposa Azual, 2016. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Um poema de Vim Porque me Pagavam - Golgona Anghel

Aos Sábados repousava:
instalava-me no lugar mais cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da marquise.


Nos intervalos,
cultivava em pequenos parágrafos,
ao lado de couves-flor à sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda gazes e veludos,
toda cheia de recantos africanos,
penas e cheiros, paisagens com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo, Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos curiosos
desfia o pergaminho do meu cancioneiro pessoal
num aparato crítico fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se aprendes):
Carlos Fradique Mendes.


Vim Porque me Pagavam. Lisboa: Mariposa Azual, 2011.

sexta-feira, 27 de março de 2015

PURA - Raquel Nobre Guerra


esta gente que colhe água para derramá-la
compassivamente sobre a chaga
esta virtuosa carraça da solidão pública
com redentor cigarro público também
esta solidão assediando cretinos e sábios
esta deserta implausível cartada
grande força erguida a prumo
esta gente sobre esta imperial e sopa à frente
esta gente que se levanta de peito e escreve
para não matar ninguém


Groto Sato, Raquel Nobre Guerra. Lisboa: Mariposa Azual, 2012.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Um poema de Marília Garcia

1.
no filme pierrot le fou de jean-luc godard
tem uma cena em que os amantes ferdinand e marianne
estão fugindo em um carro conversível vermelho
por uma estrada ensolarada
no litoral sul da
frança
nesta cena de pierrot le fou
a câmera filma os dois a partir do banco de trás do carro
nesta cena de pierrot le fou
o ponto de vista do espectador é de quem está de fora
porque os dois estão de costas para a câmera
apesar disso a estrada vai se abrindo à frente
e o movimento carrega todo mundo pra dentro da história
nesta cena de pierrot le fou
o diálogo que ocorre entre ferdinand e marianne
tem um tom bastante leve
para a gravidade do assunto
eles discutem o que farão agora
depois de fugirem juntos depois que ele largou mulher e filha
depois de se envolverem com tráfico de armas
com um assassinato e de roubarem este carro
ferdinand quer parar em alguma praia tranquila
e ficar com marianne por um tempo
ferdinand diz mais de uma vez que está apaixonado
mas marianne responde que eles precisam de dinheiro
ela sugere que procurem seu irmão para conseguirem grana
e poderem ir para um hotel chique se divertir
nesse momento ferdinand se vira
olhando para trás na direção da câmera
e diz – estão vendo
ela só pensa em se divertir
marianne se vira também olhando para trás
na direção da câmera
e pergunta pra ele – com quem você está falando?
ao que ele responde – com o espectador
esse curto diálogo de pierrot le fou
contribui para dar ao filme sua dimensão de filme
de algum modo essa menção ao espectador
fura o filme e insere nele uma espécie de
corte
interrupção que dá a ver mais concretamente
a dimensão da montagem no cinema
a mídia que poderia passar desapercebida
no produto final
irrompe no filme criando uma descontinuidade um furo
o que sinto ao pensar em você
ela disse
é um furo
se penso na poesia
quais recursos ao lado do corte
poderiam contribuir para tornar o poema
um poema?

Marília Garcia. Um Teste de Resistores. Lisboa: Mariposa Azual (2014)

terça-feira, 15 de julho de 2014

Bilhete - Henrique Manuel Bento Fialho


Bilhete

Fui-me embora, não esperes por mim.
Se alguém der pela falta, diz apenas
que estou bem, continuo a fazer o mesmo
de sempre, trabalho, casa, trabalho, casa.
 
Só não mintas às filhas, diz-lhes que fui
procurar na distância outra forma de solidão,
talvez convencido de que longe de tudo
poderei vir a sentir falta do que já tenho.

Estação 2012. Mariposa Azual, 2014.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Um poema de Miguel Cardoso

DIÁLOGOS COM SOPHIA II


Sabemos que a noite
desfia as horas do dia
teceu e a manhã
irrompe irreversível e quase
singular e nada
do que acontece é solitário tudo
é eco e ressoa

E o inumerável é outro nome
para o mundo para o aguçado
revolver dos restos que nos restam
e do que neles resta
do entorpecido músculo do possível

A branda cegueira do inominável é outro nome
para as rugas do tecido de poeira e luz e espanto
da janela que por vezes habitamos em jejum
na manhã que sacode a exactidão
dos nomes e desperta coisa a coisa as ramagens
nítidas as mãos mundanas do que é eterno
e inteiro por instantes

Dos arranhados ecos

do estilhaçar das coisas
já no início estilhaçadas

Uma e outra vez na sucessão dos dias
erguem-se os ombros subitamente

nos intervalos dos tambores
do tempo tão dividido
num gesto fora de tempo e fora de uso
danço tropeço gesticulando para a verdade

Como é estranho tudo
saber – enquanto espero
neste canto do café com um livro
um lápis a luz de soslaio
sobre este canto da mesa –

a pouco

e no pouco saber e
de coisa em coisa
cerrar o punho do tempo
todo o tempo
fiado e desfiado
em torno de um instante

Sabêmo-lo.

É preciso reinventar o início

Miguel Cardoso, Que se diga que vi como a faca corta, Mariposa Azual, 2010. Retirado daqui.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Pays en Abyme

Um país é considerado o território
físico de um Estado soberano ou de uma
menor ou antiga divisão política dentro
de uma região geográfica. Um país pode
coincidir com uma região geográfica e estar
associado a uma nação, linhagem, família,
cisterna, separação, caída, cal, aborto,
abismo, desgoverno.

Susana Araújo, Dívida Soberana, Mariposa Azual, 2012

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um poema de Golgona Anghel


Porque falta meia hora antes de
tomar o comprimido para dormir,
porque mesmo depois de tanto tempo
fazes de mi o filho com síndroma de Down
de Arthur Miller,
porque escrever não é só abrir cabeças
com o bisturi de Lacan,
e porque um poema não é a Isabella Rossellini
a chorar todos os sábados à noite,
nem o casal encontrado abraçado
na paralisia bucal do Vesúvio.
Porque a poesia não é a ponte Mirabeau
num cartaz de néon da adolescência,
porque hoje, quando ligaste,
era apenas porque te tinhas enganado no número,
porque estou cansado, voilà,
e não consigo evitar a noite,
penso agora em ti, Juliana,
heroína no sentido naturalista do termo,
penso sobretudo no teu arzinho
de provocação e de ataque.

Podias ter sido a Maria Eduarda
do cinema norte-americano,
a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra em Vietname,
a Frida Kahlo e o Kofi Annan,
a estátua de Notre Dame.

O teu sentido reformista,
o teu olhar de Eça socialista,
cá está,
tinhas cabeças para embaixadora da boa vontade,
pés para andar nos corredores da ONU,
o feitio da botina, a mania, a despesa.

Mas continuas a dormir no teu cacifo húmido,
de cara para a parede
enquanto 20 repúblicas foram perpetuando
campanhas eleitorais e golpes de estado
nos jornais com os quais limpas os vidros da cozinha.

Coitada, coitadinha, coitadíssima,
permaneces na sala, um pouco pálida e fraca,
mas restituída aos deveres domésticos e aos prazeres da sociedade!

O feitio da botina, a mania, a despesa,
o cheiro a terebintina,
Ó Juliana Couceiro Tavira, per omnia saecula,
chega paracá a garrafa e o cinzeiro;
temos assuntos por tratar e meia hora de créditos.

Golgona Anghel
in Vim Porque Me Pagavam (Lisboa: Mariposa Azul, 2011)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Declaração de Intenções - Margarida Vale de Gato



Para aqueles que insistem diluir

isto que escrevo aquilo que eu vivo

é mesmo assim, embora aluda aqui

a requintes que com rigor esquivo.


À língua deito lume, o que invoco

te chama e chama além de ti, mas versos

são uma disciplina que macera

o corpo e exaspera quanto toco.


Fazer poesia é árido cilício,

mesmo que ateie o sangue, apenas pus

se extrai, nem nunca pela escrita


um sólido balança, ou se levita.

Então sobre o poema, o artifício,

a borra baça, a mim a extrema luz.


Margarida Vale de Gato, Mulher ao Mar, 2011, Mariposa Azual