quinta-feira, 20 de setembro de 2012

August - Yona Harvey


swatting mosquitoes
I knelt beside daddy's deck
as afternoon unraveled
like a volleyball net.
Our lawn recurred five times
up the lane, every yard's
tomato plants patterned
after the same magazine.
Granny Burns sighed
at my aunts & mother
fluttering like insects
among paper plates,
baked beans, potato salad.
Too shy to dance, I watched
my cousins' bodies bob
& pop like pogo sticks
to Roger Troutman
& Zapp, each proud step
an electric prayer.
I searched old boxes
for badminton racquets
as beads of sweat clung
to my small breasts
like a boy's mouth,
almost happy
being asked to help.

Retirado daqui.

Um poema de Hélia Correia


23.
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
A Terceira Miséria, Relógio d'Água, 2012

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Manhattan pela linha mais longa - José Duarte


Perdido
na cidade,
reduzido
a lugares,
o sentimento de
que não estava
em sítio
algum,
entre todas
as hipóteses,
umas mãos
pousadas
na ponte,
tempestades,
um jardim.
E sempre
o chão
como âncora,
seguindo
para uma
Manhattan
pela linha
mais longa.

Da série Erasures 

José Duarte

«Sê lenha» - Ana Marques Gastão

Enquanto a faca corta o alimento,
a boca atrasa o corte, o paladar,
a sorte, a criança devora o que tens
e a vontade pede-te: «sê lenha».
Anda, suporta teu corpo de ferida
cicatriz ou nome, és esqueleto bravio
carne e voragem, sino que ressoa,
te ensurdece e desmorona.

Do mar, a terra, da terra a água,
do fogo, o ar, só é exterior o interior
que se evapora em solução iodada
e te abafa no fumo metálico e molda
uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,
vê, escuta o som impaciente da lenha
afundada no sal, conta a história,
repete a única história que te faz viver.

In Adornos, 2011.

domingo, 16 de setembro de 2012

Os livros - Manuel António Pina


É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo “eu” entre nós e nós?

de Como se Desenha uma Casa, 2011, Assírio & Alvim.