Mostrar mensagens com a etiqueta novo poema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta novo poema. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 19 de março de 2015

Madrid

Vês, apesar de me faltarem as 
palavras
         bem me tento expressar e, melhor ou pior,
qualquer coisa vai saindo, nem que seja noutra
língua e com uma hora de diferença.

Enquanto descíamos as ruas, maravilhosos 
braços de alcatrão, ensinava-te a dizer

sítios e gentes, coisas e sentimentos
                        e se a fome apertava

(para mim era sempre cedo)

paella, bocadillo ou churros con chocolate
serviam de alimento

ocupando as horas em que algum silêncio
se instalava

a cidade aberta
e na tua memória         o interminável jardim,
um lago imenso repleto de barcos e pessoas
que nem sequer 

                         sabiam remar

no regresso a palavra que nunca esquecerás:
lechuga

que nem chegámos a provar.

José Duarte


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

heart skipped a beat

Até o telemóvel se recusou
a eliminar de uma assentada o teu
nome. Tive de apagar, passo a passo,
linha a linha, todos os teus dados 
pessoais. Sábado de manhã e era curioso ser
no mesmo dia em que te telefonei para 
saber como estavas: à rasca de dinheiro,
como sempre. Disse que te emprestava, 
melhor, que te dava uns euros, fazendo
nota mental de que esta seria
a última vez que o fazia. E naquele dia ouvi 
a tua voz pela última vez. Nunca saberei 
se quando caíste ias levantar o dinheiro 
que tinha depositado na conta: o cartão no bolso
da camisa, juntamente com outros papéis.
Se soubesse não te teria emprestado o
dinheiro. Mas a tua voz impediu-me
de o fazer. Entre a cozinha e o quarto,
descalço, semi-nu, desgraçado, a camisa
com o cartão de um lado e, do outro, as
pernas frias. Hoje sei que se te quisesse
telefonar apenas ouviria o voice-mail
para deixar uma última mensagem,
algo que nunca tive oportunidade de
fazer. O bip incessante impõe a sua
oca presença e a tua ausência, por isso
preferi apagar o teu nome, o teu número
e outros dados mais insignificantes, na certeza
de que, agora, não precisarás que te empreste
mais dinheiro.

José Duarte, série Biografia não oficial.




quinta-feira, 21 de março de 2013

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Um poema de José Duarte


Para L.

Subíamos a rua descontraidamente
sem preocupação com a
subtileza do tempo. Quando chovia
abria o guarda-chuva, dava-te o braço
e percorríamos as ruas com edifícios
cor de tijolo. Eu sorria e tu sorrias.

Quanto mais não fosse era bom estar no quarto
a ouvir a chuva a bater, a ver as gaivotas
na rua em frente à espera da mão do
misterioso senhor que abria a janela para lhes
dar comida, sempre à mesma hora.

Se, por vezes nos distraímos do que estávamos
a fazer, era porque o silêncio tinha uma
dimensão mágica. Todas as línguas em todas
as vozes.

Não me esqueci ainda do toque, nem
das carícias às escondidas. Pequenos segredos,
que ocultam um ainda amor de juventude.

José Duarte, 2012   

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Previsão do tempo

Não será, com certeza, perversão
minha olhar-te as pernas num
dia lindo de sol. Tenho a certeza
de que não te importas. Se fosse de 
outra maneira não sorrias. 
Sei bem que esboças um sorriso
de cada vez que isso acontece.
Amanhã dizem que chove,
pelo menos a calcular pela previsão
do tempo, as nuvens cinzentas
espalhadas por todo o lado,
o vento agressivo, os pingos 
de água a atravessarem o chão
que, durante muito tempo, esteve
quente. Só tenho pena que
não tragas uma saia 
para que eu aprecie a tua cor
de praia, as pernas longas e fabulosas.
De qualquer das formas, em caso de 
tempestade, podemos sempre usar o meu
quarto. Tenho a certeza de que continuarás
a sorrir, mesmo chovendo.


Da série Biografia não Oficial
(A sair um dia destes)


José Duarte

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Prestação Social


Domingo. Algumas janelas estavam fechadas e outras
entreabertas para deixar entrar o ar quente
de Julho. Mobilizávamos os corpos
para a esplanada mais próxima. Tínhamos
a lentidão de quem acorda tarde e os olhos
semicerrados. As mãos enganam-se em carícias trocando
os hábitos naturais de quem espera em
solidão. Mais tarde, o sol baixa a sua intenção
sobre nós e escurece os sorrisos de quem sabe
que o dia termina ali. Segue-se
a noite e a certeza de que tudo é instável e o coração
não é excepção.

Da série Biografia não Oficial
(A sair um dia destes)

José Duarte 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Barracuda S164

vejo as anémonas de múltiplas cores
como se fossem parte de um grande
fogo de artifício no céu 


na linha de exercício deste poema não posso
ir mais em profundidade com medo que nos afundemos 


Da série Biografia não Oficial
(A sair um dia destes)


José Duarte

quarta-feira, 25 de abril de 2012

L'Arrivée d'un metro à Baixa-Chiado, 2012


durante um período de tempo
fez-se algum silêncio

depois o homem 

-  provavelmente um turista - 

do outro lado da plataforma

(a mala de viagem enconstada
às pernas brancas)

pega na sua máquina
digital, coloca-se em 
posição

e filma a chegada
de um metro à
baixa-chiado

onde as luzes azuis se acendem
como se tivéssemos
num cabaré 


não em La Ciotat, 
mas em Lisboa

Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)

José Duarte