Vês, apesar de me faltarem as
palavras
bem me tento expressar e, melhor ou pior,
qualquer coisa vai saindo, nem que seja noutra
língua e com uma hora de diferença.
Enquanto descíamos as ruas, maravilhosos
braços de alcatrão, ensinava-te a dizer
sítios e gentes, coisas e sentimentos
e se a fome apertava
(para mim era sempre cedo)
paella, bocadillo ou churros con chocolate
serviam de alimento
ocupando as horas em que algum silêncio
se instalava
a cidade aberta
e na tua memória o interminável jardim,
um lago imenso repleto de barcos e pessoas
que nem sequer
sabiam remar
no regresso a palavra que nunca esquecerás:
lechuga
que nem chegámos a provar.
José Duarte
“Books are finite, sexual encounters are finite, but the desire to read and to fuck is infinite; it surpasses our own deaths, our fears, our hopes for peace.” ― Roberto Bolaño
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quinta-feira, 19 de março de 2015
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
heart skipped a beat
Até o telemóvel se recusou
a eliminar de uma assentada o teu
nome. Tive de apagar, passo a passo,
linha a linha, todos os teus dados
pessoais. Sábado de manhã e era curioso ser
no mesmo dia em que te telefonei para
saber como estavas: à rasca de dinheiro,
como sempre. Disse que te emprestava,
melhor, que te dava uns euros, fazendo
nota mental de que esta seria
a última vez que o fazia. E naquele dia ouvi
a tua voz pela última vez. Nunca saberei
se quando caíste ias levantar o dinheiro
que tinha depositado na conta: o cartão no bolso
da camisa, juntamente com outros papéis.
Se soubesse não te teria emprestado o
dinheiro. Mas a tua voz impediu-me
de o fazer. Entre a cozinha e o quarto,
descalço, semi-nu, desgraçado, a camisa
com o cartão de um lado e, do outro, as
pernas frias. Hoje sei que se te quisesse
telefonar apenas ouviria o voice-mail
para deixar uma última mensagem,
algo que nunca tive oportunidade de
fazer. O bip incessante impõe a sua
oca presença e a tua ausência, por isso
preferi apagar o teu nome, o teu número
e outros dados mais insignificantes, na certeza
de que, agora, não precisarás que te empreste
mais dinheiro.
José Duarte, série Biografia não oficial.
a eliminar de uma assentada o teu
nome. Tive de apagar, passo a passo,
linha a linha, todos os teus dados
pessoais. Sábado de manhã e era curioso ser
no mesmo dia em que te telefonei para
saber como estavas: à rasca de dinheiro,
como sempre. Disse que te emprestava,
melhor, que te dava uns euros, fazendo
nota mental de que esta seria
a última vez que o fazia. E naquele dia ouvi
a tua voz pela última vez. Nunca saberei
se quando caíste ias levantar o dinheiro
que tinha depositado na conta: o cartão no bolso
da camisa, juntamente com outros papéis.
Se soubesse não te teria emprestado o
dinheiro. Mas a tua voz impediu-me
de o fazer. Entre a cozinha e o quarto,
descalço, semi-nu, desgraçado, a camisa
com o cartão de um lado e, do outro, as
pernas frias. Hoje sei que se te quisesse
telefonar apenas ouviria o voice-mail
para deixar uma última mensagem,
algo que nunca tive oportunidade de
fazer. O bip incessante impõe a sua
oca presença e a tua ausência, por isso
preferi apagar o teu nome, o teu número
e outros dados mais insignificantes, na certeza
de que, agora, não precisarás que te empreste
mais dinheiro.
José Duarte, série Biografia não oficial.
quinta-feira, 21 de março de 2013
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Um poema de José Duarte
Para L.
Subíamos
a rua descontraidamente
sem
preocupação com a
subtileza
do tempo. Quando chovia
abria o
guarda-chuva, dava-te o braço
e
percorríamos as ruas com edifícios
cor de
tijolo. Eu sorria e tu sorrias.
Quanto
mais não fosse era bom estar no quarto
a ouvir
a chuva a bater, a ver as gaivotas
na rua
em frente à espera da mão do
misterioso
senhor que abria a janela para lhes
dar
comida, sempre à mesma hora.
Se, por
vezes nos distraímos do que estávamos
a fazer,
era porque o silêncio tinha uma
dimensão
mágica. Todas as línguas em todas
as
vozes.
Não me
esqueci ainda do toque, nem
das carícias
às escondidas. Pequenos segredos,
que
ocultam um ainda amor de juventude.
José
Duarte, 2012
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Previsão do tempo
Não será, com certeza, perversão
minha olhar-te as pernas num
dia lindo de sol. Tenho a certeza
de que não te importas. Se fosse de
outra maneira não sorrias.
Sei bem que esboças um sorriso
de cada vez que isso acontece.
Amanhã dizem que chove,
pelo menos a calcular pela previsão
do tempo, as nuvens cinzentas
espalhadas por todo o lado,
o vento agressivo, os pingos
de água a atravessarem o chão
que, durante muito tempo, esteve
quente. Só tenho pena que
não tragas uma saia
para que eu aprecie a tua cor
de praia, as pernas longas e fabulosas.
De qualquer das formas, em caso de
tempestade, podemos sempre usar o meu
quarto. Tenho a certeza de que continuarás
a sorrir, mesmo chovendo.
Da série Biografia não Oficial
(A sair um dia destes)
José Duarte
minha olhar-te as pernas num
dia lindo de sol. Tenho a certeza
de que não te importas. Se fosse de
outra maneira não sorrias.
Sei bem que esboças um sorriso
de cada vez que isso acontece.
Amanhã dizem que chove,
pelo menos a calcular pela previsão
do tempo, as nuvens cinzentas
espalhadas por todo o lado,
o vento agressivo, os pingos
de água a atravessarem o chão
que, durante muito tempo, esteve
quente. Só tenho pena que
não tragas uma saia
para que eu aprecie a tua cor
de praia, as pernas longas e fabulosas.
De qualquer das formas, em caso de
tempestade, podemos sempre usar o meu
quarto. Tenho a certeza de que continuarás
a sorrir, mesmo chovendo.
Da série Biografia não Oficial
(A sair um dia destes)
José Duarte
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Prestação Social
Domingo.
Algumas janelas estavam fechadas e outras
entreabertas
para deixar entrar o ar quente
de
Julho. Mobilizávamos os corpos
para a
esplanada mais próxima. Tínhamos
a
lentidão de quem acorda tarde e os olhos
semicerrados.
As mãos enganam-se em carícias trocando
os
hábitos naturais de quem espera em
solidão.
Mais tarde, o sol baixa a sua intenção
sobre
nós e escurece os sorrisos de quem sabe
que o
dia termina ali. Segue-se
a noite
e a certeza de que tudo é instável e o coração
não é excepção.
Da série
Biografia não Oficial
(A sair
um dia destes)
José
Duarte
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Barracuda S164
vejo as anémonas de múltiplas cores
como se fossem parte de um grande
fogo de artifício no céu
na linha de exercício deste poema não posso
ir mais em profundidade com medo que nos afundemos
Da série Biografia não Oficial
(A sair um dia destes)
José Duarte
como se fossem parte de um grande
fogo de artifício no céu
na linha de exercício deste poema não posso
ir mais em profundidade com medo que nos afundemos
Da série Biografia não Oficial
(A sair um dia destes)
José Duarte
quarta-feira, 25 de abril de 2012
L'Arrivée d'un metro à Baixa-Chiado, 2012
durante um período de tempo
fez-se algum silêncio
depois o homem
- provavelmente um turista -
do outro lado da plataforma
(a mala de viagem enconstada
às pernas brancas)
pega na sua máquina
digital, coloca-se em
posição
e filma a chegada
de um metro à
baixa-chiado
onde as luzes azuis se acendem
como se tivéssemos
num cabaré
não em La Ciotat,
mas em Lisboa
não em La Ciotat,
mas em Lisboa
Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)
José Duarte
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