“Books are finite, sexual encounters are finite, but the desire to read and to fuck is infinite; it surpasses our own deaths, our fears, our hopes for peace.” ― Roberto Bolaño
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quinta-feira, 3 de maio de 2012
RMS Titanic
mas deixemo-nos de motivos
marítimos
e continuemos esta viagem
que, por si só, já é trágica
não quero saber de Leonardo DiCaprio
ou Kate Winslet
ou do icebergue em que o barco
embateu
isso é coisa para os que estudam
geologia
eu estudo a arte da vida
e importa-me, entretanto,
saber como terá sido
sorver o último minuto
de ar
a boca cheia
perante a linha
de água que se agita
nos olhos
e um rio
flutuando nos
pulmões
Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)
José Duarte
quarta-feira, 25 de abril de 2012
L'Arrivée d'un metro à Baixa-Chiado, 2012
durante um período de tempo
fez-se algum silêncio
depois o homem
- provavelmente um turista -
do outro lado da plataforma
(a mala de viagem enconstada
às pernas brancas)
pega na sua máquina
digital, coloca-se em
posição
e filma a chegada
de um metro à
baixa-chiado
onde as luzes azuis se acendem
como se tivéssemos
num cabaré
não em La Ciotat,
mas em Lisboa
não em La Ciotat,
mas em Lisboa
Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)
José Duarte
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Noite com Johnny Guitar e João César Monteiro
i'm a stranger here myself
Johnny Guitar
é noite e a manhã
ainda tarda a chegar
ouvem-se vozes nas
ruas de lisboa
o homem espreita à janela
mete a mão ao bolso
retirando cuidadosamente
o isqueiro com que
acende um cigarro, o seu
pensamento
ambulante como o fino fio
de fumo que se arrasta
lentamente
pela noite dentro
a banda sonora é a de um
filme conhecido
do outro lado da rua a
mulher penteia
lentamente o cabelo
antes de se
entregar ao sono
depois fecha a
janela, por vezes
conseguem perceber-se
algumas vozes indistintas
em casas alheias e a sombra
a
passar que se segura
à luz por onde caminha
o homem reabre a
janela
resta o clarear da manhã
seguro a pouco e
pouco
cobrindo os edíficios da cidade
cobrindo os edíficios da cidade
já se ouvem os pássaros
ao longe primeiro num
canto
desalinhado, depois em
harmonia
resta a ausência, o plano
em
aproximação da paisagem
deixando tudo o resto para
lá desta
história
Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)
José Duarte
quinta-feira, 22 de março de 2012
Um quarto com vista para o Hudson
antes da descida
aos infernos
aluguei um
quarto com vista
para o Hudson
serpenteava ainda
o rio como o sexo
lânguido por entre
as margens do corpo
encostadas, ainda que por breves
momentos, à janela
obedecendo ao movimento
dos barcos que fumegavam
nas águas do porto
empurrando as ondas
partindo com origem
mas sem destino
deixando um rasto
de espuma que
depois se desvanece
a noite parece longa
carrego no botão do elevador
para descer
em desespero
entrego-me à pornografia
dos lugares comuns
e das luzes da cidade
de todas as cores
não há já
caminho que possa percorrer
resta apenas a certa solidão
a sombra exacta do que
guardo no coração
por entre
os dedos
ardendo na boca
Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)
José Duarte
segunda-feira, 19 de março de 2012
Um novo poema
A Balada de Bonnie & Clyde
eu não lhe chamo crime
eu chamo-lhe amor,
amor louco para ser mais correcto
sexo em movimento
o corpo em alerta
a brisa da velocidade
que circula
por entre as janelas
abertas do carro
e o sentido de liberdade
que outra estrada
não pode dar
ela enconstada
no ombro dele
vieram de longe
e continuam esfomeados
pelo horizonte
pelo menos ele
a quem a visão ainda
continua turva
pela circulação
que ela alimenta
mas a que reconhece
um fim
não há hipótese
de ir continuando
apenas
sem limites
nem barreiras
fugindo às regras
obedecendo ao romance
como Eva ela
dá-lhe a comer a maçã
como Adão ele aceita
a visão toldada
com os óculos
de um lado
vendo claramente
do outro
adivinhado uma
certa escuridão
da paragem que, na certa,
lhes impõe um fim
armadilhado
em câmara lenta
ele olha para ela
ela olha para ele
tem as mãos no volante
ele dá um passo em frente
por momentos
o ar engrossa
torna-se pesado
sustemos a respiração
as aves
desprendem-se
das árvores
e voam
os corpos
tombam
warren beatty,
faye dunaway,
Clyde,
Bonnie
para sempre.
Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)
José Duarte
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
asfalto - assalto
toda a história é uma tragédia,
os personagens encontram-se sempre
num certo escuro
de ombros encolhidos
fugir parece ser a solução ideal
mas nem isso concede a tão
almejada liberdade
resta conduzir
sem destino
ou sem destino
conduzir
sabe-se lá bem para onde
o carro - a cidade
a casa - o carro
e tu, enconstada no meu ombro,
os teus olhos duas covas fundas
da qual saem lágrimas de cinza
e eu, cansado, cigarro ao canto
da boca e a desconfiança
do retrovisor
não vá o passado trair-nos.
que disparate
e sigo aquela linha branca
agarro com força, as mãos
no volante.
meto a quinta
e acelero
acelero
a-ce-le-ro
a pulsação
pneus a chiar
são e salvo
agora que descemos
o desfiladeiro
como thelma e louise
bem, não como elas,
mas quase.
um sobressalto
do assalto
ao meu coração.
Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)
José Duarte
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