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quinta-feira, 3 de maio de 2012

RMS Titanic



mas deixemo-nos de motivos
marítimos


e continuemos esta viagem
que, por si só, já é trágica


não quero saber de Leonardo DiCaprio
ou Kate Winslet 


ou do icebergue em que o barco
embateu 


isso é coisa para os que estudam
geologia


eu estudo a arte da vida
e importa-me, entretanto,


saber como terá sido 
sorver o último minuto
de ar


a boca cheia
perante a linha
de água que se agita
nos olhos


e um rio 
flutuando nos 
pulmões




Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)


José Duarte

quarta-feira, 25 de abril de 2012

L'Arrivée d'un metro à Baixa-Chiado, 2012


durante um período de tempo
fez-se algum silêncio

depois o homem 

-  provavelmente um turista - 

do outro lado da plataforma

(a mala de viagem enconstada
às pernas brancas)

pega na sua máquina
digital, coloca-se em 
posição

e filma a chegada
de um metro à
baixa-chiado

onde as luzes azuis se acendem
como se tivéssemos
num cabaré 


não em La Ciotat, 
mas em Lisboa

Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)

José Duarte


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Noite com Johnny Guitar e João César Monteiro




i'm a stranger here myself
Johnny Guitar

é noite e a manhã
ainda tarda a chegar
ouvem-se vozes nas ruas de lisboa
o homem espreita à janela
mete a mão ao bolso
retirando cuidadosamente
o isqueiro com que
acende um cigarro, o seu pensamento 
ambulante como o fino fio
de fumo que se arrasta lentamente
pela noite dentro
a banda sonora é a de um filme conhecido
do outro lado da rua a mulher penteia 
lentamente o cabelo 
antes de se entregar ao sono
depois fecha a janela, por vezes 
conseguem perceber-se
algumas vozes  indistintas
em casas alheias e a sombra a 
passar que se segura
à luz por onde caminha
o homem reabre a janela
resta o clarear da manhã
seguro a pouco e pouco
cobrindo os edíficios da cidade
já se ouvem os pássaros
ao longe primeiro num canto 
desalinhado, depois em harmonia
resta a ausência, o plano em
aproximação da paisagem
deixando tudo o resto para lá desta
história

Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)

José Duarte

quinta-feira, 22 de março de 2012

Um quarto com vista para o Hudson

antes da descida
aos infernos
aluguei um
quarto com vista
para o Hudson

serpenteava ainda
o rio como o sexo
lânguido por entre
as margens do corpo

encostadas, ainda que por breves
momentos, à janela
obedecendo ao movimento
dos barcos que fumegavam
nas águas do porto
empurrando as ondas

partindo com origem
mas sem destino
deixando um rasto
de espuma que
depois se desvanece

a noite parece longa
carrego no botão do elevador
para descer

em desespero
entrego-me à pornografia
dos lugares comuns
e das luzes da cidade
de todas as cores

não há já
caminho que possa percorrer
resta apenas a certa solidão
a sombra exacta do que
guardo no coração

por entre
os dedos
ardendo na boca

Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)

José Duarte


segunda-feira, 19 de março de 2012

Um novo poema

A Balada de Bonnie & Clyde

crime, alguém gritou!

eu não lhe chamo crime
eu chamo-lhe amor,
amor louco para ser mais correcto
sexo em movimento
o corpo em alerta

a brisa da velocidade
que circula
por entre as janelas
abertas do carro
e o sentido de liberdade

que outra estrada
não pode dar

ela enconstada
no ombro dele

vieram de longe
e continuam esfomeados
pelo horizonte

pelo menos ele
a quem a visão ainda
continua turva
pela circulação

que ela alimenta
mas a que reconhece
um fim

não há hipótese
de ir continuando
apenas

sem limites
nem barreiras
fugindo às regras
obedecendo ao romance

como Eva ela
dá-lhe a comer a maçã
como Adão ele aceita

a visão toldada
com os óculos

de um lado
vendo claramente
do outro
adivinhado uma
certa escuridão

da paragem que, na certa,
lhes impõe um fim
armadilhado

em câmara lenta
ele olha para ela
ela olha para ele

tem as mãos no volante
ele dá um passo em frente

por momentos
o ar engrossa
torna-se pesado

sustemos a respiração

as aves
desprendem-se
das árvores
e voam

os corpos
tombam

warren beatty,
faye dunaway,
Clyde,
Bonnie

para sempre.

Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)

José Duarte

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

asfalto - assalto

toda a história é uma tragédia,
os personagens encontram-se sempre
num certo escuro
de ombros encolhidos

fugir parece ser a solução ideal
mas nem isso concede a tão
almejada liberdade

resta conduzir
sem destino
ou sem destino
conduzir
sabe-se lá bem para onde

o carro - a cidade
a casa - o carro
e tu, enconstada no meu ombro,
os teus olhos duas covas fundas
da qual saem lágrimas de cinza

e eu, cansado, cigarro ao canto
da boca e a desconfiança
do retrovisor
não vá o passado trair-nos.

que disparate
e sigo aquela linha branca
agarro com força, as mãos
no volante.
meto a quinta
e acelero
acelero
a-ce-le-ro

a pulsação
pneus a chiar
são e salvo

agora que descemos
o desfiladeiro
como thelma e louise

bem, não como elas,
mas quase.

um sobressalto
do assalto
ao meu coração.

Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)

José Duarte