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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Noite com Johnny Guitar e João César Monteiro




i'm a stranger here myself
Johnny Guitar

é noite e a manhã
ainda tarda a chegar
ouvem-se vozes nas ruas de lisboa
o homem espreita à janela
mete a mão ao bolso
retirando cuidadosamente
o isqueiro com que
acende um cigarro, o seu pensamento 
ambulante como o fino fio
de fumo que se arrasta lentamente
pela noite dentro
a banda sonora é a de um filme conhecido
do outro lado da rua a mulher penteia 
lentamente o cabelo 
antes de se entregar ao sono
depois fecha a janela, por vezes 
conseguem perceber-se
algumas vozes  indistintas
em casas alheias e a sombra a 
passar que se segura
à luz por onde caminha
o homem reabre a janela
resta o clarear da manhã
seguro a pouco e pouco
cobrindo os edíficios da cidade
já se ouvem os pássaros
ao longe primeiro num canto 
desalinhado, depois em harmonia
resta a ausência, o plano em
aproximação da paisagem
deixando tudo o resto para lá desta
história

Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)

José Duarte

segunda-feira, 12 de março de 2012

Memória

não é que propriamente
me sinta errado,
mas o sentimento é estranho
aceno que sim
porque sim
a cabeça faz bem aquele movimento

são ainda reveladas
de um rolo antigo
as tuas fotografias
como se quisessem mesmo contar
uma história - as imagens ligadas umas às outras -
a película que gravou aquele instante

mas não conheço os sítios nem as pessoas
só sei que
há felicidade ali, naquela imagem
e a demasiado óbvia nostalgia
de quem salta entre oceanos

da minha parte
ou melhor, da minha infância
sujei-me muito e fiz sujar outros
mesmo quando achava que procedia mal
e saltava muros e quintais

e enganava-me frequentemente
pensando como era bom
poder estar assim
para sempre

mas sabia que não ia ser assim
portanto, calculo que saibas como me
sinto se não percebo a dimensão
de uma sala ou de um quarto
ou de brinquedos ditos
numa outra língua
que eu entendo,
mas que me é estranha

nunca vi neve
e a paisagem é diferente
é natural que o meu coração
pule e se engane
e guarde o sangue
desejando também ter estado ali

mas não estive
não é que faça a diferença
só torna ainda mais enigmático
a forma como compreendo
o que me explicas

aguardas a resposta
e eu digo que sim
há memórias
boas, de coisas que se guardam

e outras que não descolam
da pele

são diferentes as casas que habitamos
guardam objectos
e mobílias estranhas
com gavetas cheias de segredos

e se o silêncio por vezes
não chega
fechamos as portas e seguimos
em frente
selando-as indeterminadamente
até que o branco da cal ou o azul
do mar
nos traiga do esquecimento

ficando assim
a olhar o que podia ser eterno
e não é
o que foi guardado no passado
e não pode ser presente

essa matéria dos anos
que engana os homens

falas
eu continuo a dizer que sim
e respiro fundo

viras a cara
sei que sentes exactamente
o mesmo quando te digo
que já dormi ali.


Da série Biografia não oficial
(A sair um dia destes)

José Duarte

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Paris


Imagem do filme L'Appolonide: House of Tolerance, realizado por Bertrand Bonello, 2011




ao terceiro dia de ter estado
em Paris lembro aquela mão
e os segredos que guardava
com alguma tolerância,
falava-se já do metro
e das inovações tecnológicas
e como ninguém gosta de andar debaixo de chão,
embora algumas pessoas sorrissem
Paris é mais bonita quando vista por cima
à superfície,
ou dentro de uma casa, um bordel,
para ser mais preciso,
espreitando pela janela, os movimentos
pendulares, e, extasiado pela vista
sempre se finge um orgasmo
como uma pantera quando lhe amansam o pêlo
e volto às mãos, que amarradas ficam sem qualquer
tipo de defesa, permitindo os horrores
da desfiguração, um sorriso triste e
obedece-se baixando a cabeça,
acenando como os japoneses (que exótico)
divídas não pagam tristezas
e, por isso, a casa fica fechada
os copos de cristal passaram a vidro,
uma pequena recordação:
já não cantam as sereias, os sofás ganharam o pó
do vazio que se instala a pouco e pouco
o fumo dos cigarros tomou o seu lugar e
partiu para nunca mais voltar,
já nem sequer há cores a esvoaçar
com os vestidos sumptuosos,
elegantes, que enganavam por momentos
a inocência que dormia no quarto ao lado
curiosidades, quem sabe, como gostar de ver
criminosos enforcados
bem sei que já não o fazem
é, de certo, uma prática bárbara
e indecente como as putas podem ser
lembro ainda a luz vermelha que se
silencia para sempre,
a porta que se fecha
com os séculos
no meu último dia em Paris
o peso da memória é algo que
nunca controlamos,
como quando queremos muito
rir e não podemos
a metáfora desproporcionada
como as adivinhas de uma ciência
fora da validade.

Da série Cinematografias
(A sair um dia destes)

José Duarte