quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Literature, What Is It Good For? - Evan Gottlieb

As I get ready to begin another year of teaching literature and literary theory classes at my university, it occurs to me to reflect on what it means to teach such courses today. Recently, there has been another outbreak of public debate regarding what value, if any, the teaching of the liberal arts in general, and literature in particular, stills hold for college students. So instead of discussing specific literary or critical topics, as I usually do in this space, I'd like to float some more general reflections regarding higher education in the humanities today.
The socio-political backdrop of the latest cry of "there's a crisis in the humanities" is clear, at least in the United States: we are in a long-term era of declining public funding for higher education and mounting student debt. The causes of these trends are complex and open to debate; what is clear is that neither looks like it's going to change any time soon. As a result, some commentators have posited a relationship between these pressures and what look likedeclining rates of majors in the liberal arts. Not so fast, others have responded. Although numbers of majors in traditional humanities departments like English, history, and philosophy seem unlikely to re-reach their highs of the 1960s, the rise of interdisciplinary majors and "area studies" degrees means that today's students have more options from which to choose, and are therefore fanning out across the humanities rather than dropping them altogether.
Nevertheless, there's no denying that majors perceived as practical are thriving -- business-related fields now enroll more students than any other discipline -- whereas the humanities are at best holding steady. This, in turn, has led some well-meaning commentators to mount defenses of the latter that emphasize its practical sides. Their basic argument -- which is not new so much as retooled for our financially-strapped, information-heavy times -- is that the humanities continue to have value because we teach students broad but deep sets of skills they can then use in a variety of advanced degrees or work settings after their undergraduate years. Close reading, coherent writing, public speaking, and the all-pervasive virtue of critical thinking have all been touted as skills that will help humanities students achieve success as effectively as their peers with degrees in public health or engineering.
I'm usually reluctant to debate these kinds of value-driven arguments, especially when students are legitimately worried about how they're going to pay off their student loans and make their way in the world after college. But whether they mean to or not, these claims obscure another important side of what study in the humanities can do: it can help students learn to question how and why we have come to accept the current definitions of "success" and "the real world." This is important because those definitions -- of success as ultimately measured in dollars, and of a world that mostly accepts global inequality as a fact of life -- have helped create or worsen many of the crises (economic, ecological, political) we now face.
Along these lines, I mistrust the implication that critical thinking -- thinking at length and in-depth, with imagination, sympathy, and careful skepticism -- can simply be "plugged in" to life in the workforce upon graduation. After all, the critical in "critical thinking" should not just designate critique in the negative sense of criticizing something; it should also signify the ability to imagine alternatives to the status quo. When we teach our students to think critically -- by modeling such habits of mind from the front of the class, as well as by giving them examples of it in their readings -- we are in effect teaching them to question what society has been telling them to desire all along. This can and perhaps should be a disconcerting experience, but it also can and should leave students with a stronger sense of their own abilities, goals, and dreams going forward.
The other argument in favor of the humanities that has returned lately is simple: reading books will make you a better person. This is an old line of thought, going back to the Victorian writer Matthew Arnold, and before him to the classical author Horace. But it also leaves me feeling ambivalent. For one thing, it's not difficult to refute anecdotally: we all know (or at least know of) people who read a lot but are still mean, selfish, or otherwise unpleasant. Nevertheless, I do think that reading -- especially reading fictional narratives, whether War and Peace or Watchmen -- offers interpretive challenges and pleasures that cannot be found easily elsewhere. These challenges and pleasures, in turn, may lead to a greater ability to identify with other people and ways of life, as well as to a greater ability to question one's own assumptions and motivations. But these are by no means given, and I hesitate to offer literature to my students as a tool for self-improvement just as I hesitate to offer "critical thinking" to them as a means to a gainful employment.
So where does all this leave me as I embark on another year of teaching literature at the college level? If nothing else, it leaves me grateful for the opportunity once again to get into a classroom with a group of young adults, to challenge them with my questions and interpretations regarding the texts and ideas we will study together, and to listen to their responses and fresh takes. It also makes me again realize the wisdom of the great English poet W.H. Auden when he wrote: "Poetry makes nothing happen." Because Auden's "nothing," as I will suggest to my students when I next teach the poem in which this line appears, may be something much more than mere absence; it may be a possibility that was not imaginable prior to the acts of reading, writing, and interpreting that still make up the core activities of the humanities -- and, arguably, of humanity as whole.
Retirado daqui.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Like Someone in Love

Vista do Castelo de Mumbles, em Swansea

Seguimos primeiro de Lisboa a Londres, duas horas e meia de viagem aproximadamente. Nunca consigo sentir-me confortável num avião. Há sempre uma sensação de queda inevitável, por isso controlo a minha respiração e evito movimentos bruscos. Heathrow é um labirinto cujo tamanho nunca irei conseguir compreender, colorida apenas pelos famosos sinais que indicam o metro.

A estação de autocarros logo ao lado é composta por uma sala central onde pessoas de todas as cores circulam ou estão sentadas. Uns aproveitam para ler antes de partir, outros comem as habituais sandes, sempre mirando o grande relógio que anuncia as horas e que controla as chegadas e as partidas.

Quando entro no autocarro relembro que a condução é feita do outro lado, coisa que calculo nunca conseguir fazer. O espaço entre bancos é mais do que suficiente, mesmo para quem tem as pernas grandes e os assentos são especialmente confortáveis. Consigo dormir durante alguns minutos apenas para acordar num veículo que, dada a minha desorientação, parece conduzir-se a si mesmo. Levo algum tempo a perceber que o condutor está do outro lado.  

Chegámos a Swansea quatro horas depois e umas quantas cidades. Embora viesse acordado durante a maior parte da viagem, lembro-me apenas de Bristol, dada a sua importância e da entrada no País de Gales, Cardiff e, finalmente, da chegada ao nosso destino. A cidade, com cerca de 450 mil habitantes, fica junto ao mar. As gaivotas sobrevoam os edifícios cor de tijolo e cinzento e, todos os dias de manhã, impedem-me de continuar a dormir. Às vezes chegam a pousar no telhado da residência onde fica o meu quarto.

Sempre que chove as ruas inclinadas tornam-se ainda mais difíceis de subir e, a meio caminho, o sol pode aparecer sem avisar. Hoje, por exemplo, o sol decidiu mostrar-se pelo menos até as nuvens combinarem uma conspiração silenciosa que influenciará a cor da cidade.

No dia seguinte, o sol decidiu impor a sua teimosia e ficar, mesmo que o vento ameaçasse permanecer junto aos nossos ouvidos. Creio que se fechasse os olhos talvez conseguisse ouvir segredos profundos vindo do mar trazidos através das ruas da cidade.  Aqui, todas as placas estão em duas línguas, um claro sinal do sentimento nacionalista que é partilhado por todos os habitantes deste país, creio.

Ontem fizemos um passeio guiado pela cidade, percorrendo os locais que Dylan Thomas frequentou antes de partir para a sua última viagem a New York, onde viria a morrer, depois de instalado no famoso Chelsea Hotel. Na minha cabeça ecoa a popular canção de Leonard Cohen “Chelsea Hotel # 2”, hotel por onde passaram vários artistas conhecidos, incluindo Janis Joplin que lá viria a falecer, tema principal da canção de Cohen. Patti Smith escreve, mais tarde, um excelente livro sobre o seu companheiro Robert Mapplethorpe intitulado Just Kids onde relata a maior parte destes eventos durante o tempo em que ocupou um dos quartos do hotel.

Estátua de Dylan Thomas na marina de Swansea

Nos seus últimos dias de vida Dylan Thomas transitava entre o hotel e as suas famosas leituras públicas, com aquela voz grave, e uma presença imponente. Do que apurei não existem registos audiovisuais de Dyaln em lado nenhum. Estivemos mais de uma hora na casa onde residiu durante 23 anos, que agora é uma espécie de museu, mas também é mais do que isso. Quem quiser pode marcar sessões de poesia, pequenas tertúlias ou até mesmo alugar a casa para dormir durante uns dias. O guia contou-nos pequenas histórias e mostrou-nos as divisões da casa: três quartos, uma cozinha, uma casa de banho bastante grande para a altura e uma sala comum onde decorrem, por vezes, as sessões de leitura.

Placa colocada na parede da casa onde Thomas nasceu

A casa é composta de um silêncio que não incomoda propriamente. Antes pelo contrário, fascina. Quase que conseguimos imaginar o poeta sentado na cadeira do seu minúsculo quarto a tentar compor os versos que escrevia e reescrevia até conseguir afinar o poema conforme pretendia. Diz-se que redigia todos os seus poemas à mão e, caso tivesse de efectuar alguma alteração, voltava a escrever o poema desde o princípio. Talvez por isso existam dezenas e centenas de versões do mesmo poema.  

Imagens da casa de Dylan Thomas

Fiquei impressionado com a aura daquela habitação, especialmente quando o guia, durante alguns segundos, colocou um disco a tocar numa antiga grafonola, mostrando como os sons do passado são poderosos. Também foi ali que ficámos a saber que o local onde estávamos alojados foi o mesmo onde o poeta residiu no seu tempo de estudante. A desorientação habitual só me permitiu reparar na placa que anunciava esse momento muito mais tarde. Pergunto-me se, talvez, não seja esse o segredo que as gaivotas insistem em partilhar comigo todos os dias de manhã.

Swansea é pequena e parece unicamente ter Dylan Thomas como o seu grande trunfo. Se calhar é só isso que necessitam: as palavras de um poderoso poeta que morreu cedo demais. Por vezes consigo encontrar outros encantos para além da poesia, o mar, os barcos, a marina, o sol que, de quando em quando, brilha.

Num dos dias viajámos a Cardiff, a capital do País de Gales e uma cidade com uma dimensão cultural maior que Swansea. Cardiff parece ter outra cor em relação a Swansea, mas a mesma imprevisibilidade temporal. Quando se irrita faz chover e só não faz diferença a quem vive naquela cidade.

O castelo é um dos grandes locais de atracção da capital. Fascinou-me particularmente a história daquela cidade com a II Grande Guerra. Se Swansea sofreu com o Blitz alemão não o parece revelar, embora grande parte da zona da marina tivesse de ser reconstruída. Cardiff por sua vez, e em particular no castelo, esconde os túneis onde os habitantes se protegiam dos bombardeamentos alemães. Os vários quadros pendurados na parede do longo túnel mostravam a realidade daquele tempo de crise em que, os bens que assumimos como adquiridos, se tornam mais do que preciosos. Para além de salvar vidas era crucial guardar batatas e pão, alimentos que sustentavam os quase 1300 corpos que se resguardavam em silêncio dos enormes clarões.

Castelo de Cardiff

O que fazer em caso de ataque. Um quadro que estava no túnel

Ao mesmo tempo Cardiff aposta  numa maior dimensão cultural. O museu principal da cidade esconde belas pinturas e estátuas de reconhecidos escultores. Nas ruas as flores frescas parecem ser uma parte natural da paisagem. Os pubs continuam a ser a minha maior fonte de admiração. Comer num pub é sempre uma actividade interessante. Para além de serem locais que contam uma história alternativa da cidade – os segredos, os amores e desamores, as confissões necessárias dos arrufos domésticos sob o efeito de álcool – exercem sobre nós um fascínio que ainda não consigo explicar em palavras, especialmente depois da excelente refeição que tivemos ali. A noite de Cardiff é agitada. A noite de Swansea, percebi no regresso, divide-se entre a mesma agitação e um certo silêncio que, se compreendido, não é incómodo.

A viagem pelo campo mostrou um país muito marcado pela paisagem bucólica, onde residem os grandes agricultores. Em todas as cidades festivais, em todas as povoações pequenas atracções turísticas. “Very poplar” era a expressão utilizada pelo condutor que nos levou até Pembrokeshire e St. Davids, o primeiro um castelo tomado apenas por Oliver Cromwell e a outra a mais pequena povoação no Reino Unido, 1600 habitantes. No regresso, conhecemos caminhos alternativos, estradas diferentes e, ainda assim, reconhecemos os mais importantes locais à beira-mar.

Imagem de St. Davids

Há algo que se agita em mim quando parto. Um misto de alívio e tristeza. Não demoro muito a acomodar-me às coisas. Gosto de alguma mudança, mas favoreço as rotinas para que o meu corpo se mantenha em segurança. Reconheço a mudança que a experiência fez. Na cantina de manhã estão todos ou quase todos prontos para uma autêntica experiência britânica. O Welsh Breakfast não é muito diferente do Scottish Breakfast experimentado em Glasgow. A grande diferença é que o primeiro é acompanhado de mexilhão, algas e uma salsicha com ingredientes que não consigo distinguir.

A despedida é feita de estômago completamente cheio, mas marcada por um dos dias mais chuvosos da estadia. A descida de Mount Pleasant revela-se pouco agradável, se bem que a subida era bem pior. Completamente encharcados, parando sempre que possível para nos abrigarmos da chuva, conseguimos chegar à estação de comboios. Sentado no banco dentro da carruagem F não consigo deixar de imaginar a solidão de inverno nesta cidade. Dissemos adeus.


Na verdade, não dissemos adeus. Cruzámos a fronteira e chegamos a Oxford. Confesso que houve um sentimento clandestino em mim, até porque, durante dois dias dormimos em casa de um amigo. Oxford tem duas dimensões: a primeira existe em larga escala, os edifícios trabalhados, os estudantes, um certo lado místico e antigo, os pequenos jardins agregados a cada universidade. A segunda dimensão passa por um lado mais familiar e suburbano, mas aconchegador. À noite, ao passear pelas ruas, há um espírito que identifico noutras cidades.


Aproveitámos para ver Londres, cidade na qual reconheço a importância de caminhar. Andar pela capital faz com que o corpo sinta e incorpore a cidade, apropriando-se de um lado mais primordial e menos turísticos. Talvez seja essa a razão pela qual, máquina em punho, nunca me sentisse propriamente turista. Procurava pelos mesmos locais que os restantes milhares de pessoas, falava a minha própria língua, inscrevendo a minha pátria na paisagem londrina, mas fazia um voo raso ao invés de apressadamente retirar bocados dos edifícios e monumentos pelos quais circulava.

Londres é imensa e, mesmo assim, ainda continuo à procura de algo mais que ainda não encontrei: colocar os nomes no sítio certo, situar-me na geografia emocional, minha e da cidade e, ao mesmo tempo, camuflar-me na anatomia das ruas. Encontro a rua onde Melville viveu durante um ano e lembro-me dos Dias de Tempestade, apagar para lembrar, navegar é preciso.

Ao mesmo tempo, esquecer-me que não sou dali, não sou dali. O retorno a Oxford testemunha essa minha inquietude. A carruagem onde nos sentamos está cheia de homens de negócios engravatados. Regressam a casa depois de um dia de trabalho. Lêem o jornal diário gratuito. Neste retrato não há nada de diferente em relação ao meu país, mas só consigo pensar em Lisboa.

No dia seguinte a manhã anunciava mais uma despedida. Quase 80 km depois e uma conversa completa inteiramente na nossa língua chegámos de novo a Heathrow. Desta vez não sinto que se trate de um labirinto. A ida para o avião é simples e rápida. Lembro o aperto de mão e o abraço à entrada do aeroporto, algumas ideias e a possibilidade de um regresso. Em crise pensamos em guardar o que nos é mais importante. Tudo o resto é supérfluo. Apontam-se canhões a uma vida diferente, uma vida melhor, quem sabe uma família.


Do not go gentle into that good night ecoa como hino à resistência. Devemos ficar. Devemos resistir. Mas com quê? Como? Para quê perseguir a Baleia Branca?

O corpo viaja a uma velocidade inexplicável. Dentro do avião oferecem-nos a horrível refeição. O corpo enlatado. A comida envolta num plástico, pouco saborosa, picante. As bebidas salvam a viagem.

Deixamos para trás um país para chegar a outro. Partimos de um ponto A a um ponto B, apenas para depois regressar de B para A. Há sempre um retorno qualquer. O avião paira sobre o Tejo. A aterragem em Lisboa é uma das mais bonitas que conheço. Sabe bem estar de volta e obedecer às regras desta cidade. O sol intensifica-se pela tarde dentro. Lisboa tem uma cor especial e, sem qualquer explicação, sinto-me eufórico.

Sei bem que todos os percursos são longos. Uns dias nesta cidade amenizam a excitação inicial e dão a perceber que o clima é o mesmo: está cada vez mais calor. Um dia a capital vai aquecer tanto que vai arder, tal como o país. Contudo, o mau tempo é sempre uma incógnita em qualquer lugar do mundo.

Atravessar a estrada é uma acção com pouca dificuldade aqui. Sei de que lado vêm os carros e para que lado partem. Não há nenhuma mensagem a avisar-nos para onde devemos olhar antes de atravessar: look this way assenta na ideia de que o estranho ao país deve saber atravessar um caminho para evitar a sua própria queda, mesmo quando não estamos sozinhos.

A haver uma direcção específica, uma dado que nos indique o que fazer é esta: olhar para um dos lados. Depois olhar para o outro porque queremos atravessar em segurança. Uma vez ultrapassado o asfalto tentaremos escrever o nosso próprio caminho, de preferência acompanhado, como relembra Michel Onfray (2009), no seu belíssimo livro Teoria da viagem: uma poética da geografia:

É certo que podemos viajar sozinhos, mas com a certeza de estarmos incansavelmente connosco próprios, nos mais ínfimos pormenores, dia e noite, nas horas faustas e nefastas. Nos momentos felizes ou tristes, nos segundos melancólicos ou alegres, no desejo de isolamento ou na vontade de partilhar, temos sempre de nos suportar, de aceitar a nossa própria companhia. Nem sempre será a melhor opção.

José Duarte – 16 de Setembro de 2013

Imagem da baía de Cardiff