segunda-feira, 17 de julho de 2017

George Romero (1940-2017)

Un Sueño - Jorge Luis Borges

En un desierto lugar del Irán hay una no muy alta torre de piedra, sin puerta ni ventana. En la única habitación (cuyo piso es de tierra y que tiene la forma de círculo) hay una mesa de maderas y un banco. En esa celda circular, un hombre que se parece a mi escribe en caracteres que no comprendo un largo poema sobre un hombre que en otra celda circular escribe un poema sobre un hombre que en otra celda circular...El proceso no tiene fin y nadie podrá leer lo que los prisioneros escriben.

Jorge Luis Borges

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ai - Mexico, 1940

At noon today, I woke from a nightmare:   
my friend Jacques ran toward me with an ax,   
as I stepped from the train in Alma-Ata.
He was dressed in yellow satin pants and shirt.   
A marigold in winter.
When I held out my arms to embrace him,   
he raised the ax and struck me at the neck,   
my head fell to one side, hanging only by skin.   
A river of sighs poured from the cut.

Ai (1947-2010)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Dentro do Meu Peito Você Pode Cultivar a Solidão o Ano Inteiro - Diego Moraes

Lembro que uma senhora trabalhava na minha casa e orava muito. Ela cozinhava orando e às vezes varria a casa lagrimando. Dona Lígia. Nunca esqueço o rosto da dona Lígia. Um rosto de compadecimento com o sofrimento alheio. Uma expressão cansada de esperança num mundo melhor. Eu liguei a televisão. e vi o avião acertando a primeira torre e depois outro detonando a segunda. Ela se ajoelhou de cara pra parede e começou a chorar. Começou a pronunciar palavras em línguas estranhas. Fiquei calado. Acho que a fé da dona Lígia me deixava sem palavras. Sem ter o que dizer. Todos os canais de noticias temiam uma terceira guerra mundial e resolvi me trancar e orar também. Não me ajoelhei. Sentei a bunda na beira da cama e comecei a visualizar com força um mundo melhor. O tempo passou. […]

Diego Moraes. Dentro do Meu Peito Você Pode Cultivar a Solidão o Ano Inteiro. Lisboa: Douda Correria, 2017. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Flores - Daniel Jonas



I

Tudo isto me parece terrível.
Todas estas flores de que não sei o nome
parecendo trepar pelo ar, suspensas no equilíbrio de Satã,
deformadas, varicosas, impudentes,
cacarejando na noite.
Eu, acoitado, encarando-as à meia-noite,
figuras espectrais, abortivas,
viciosas a cada centímetro do seu talo.
A flora demencial que neste pátio assoma
interpela-me, alguma coisa tem comigo.
Só a tosse, súbita, de dentro me encoraja
atravessando a janela do quarto.
São estilhaços da voz amada,
meu emblema contra a raiva fria
de todos os dias e deste ainda,
um escudo santo
contra as invectivas de Lúcifer.

Que todos me desamparassem
não o choram estas estranhas, antes
rubricam tortuosas como epicentros
do galo.
Não poderei ir atrás do tempo
por entre os meus dedos escoado:
cada dedo pelo menos um remorso maior
no meu ábaco de angústia.

O que estas flores e estas folhas me dizem
é ainda outra coisa. Nas suas saias de varas
um modo de se estar preso
na contrição inapelável do fait accompli.
São ainda exosqueletos, a artrite ágil
disseminada, dessedentada.

Lá mais ao longe espanta-espíritos
pascem: o rebanho de Satã,
uma nuvem de dúcteis trevas,
fantasmas combalidos
de cordeiros
arrancados ao Pai.
Agora estes são cajados:
forma torpe de sede.

II

Esperastes-me, flores.
Insaciáveis mas pacientes
como alguém sabendo-se intocado
pelo falso avanço do tempo,
indómitas nos vossos nervos secos
dispersando-se apenas ilusoriamente
para tentaculares permanecerdes irrepreensíveis
na ilusão imóvel da vossa depredação.
Mostrais-vos superadoras
do mais ínfimo estado
com os vossos nódulos frios
e a vossa água paralisada.

À distância
o cerro invário,
o badalo da devastação da música,
todas estas não caducas sombras.
Esta espera não me servirá.
Os meus dias diante de mim inúteis.
A minha bela criança dorme
a meu desfavor.

Daniel Jonas. Bisonte. Lisboa: Assírio & Alvim, 2016.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

The Laughing Child - W. S. Merwin

When she looked down from the kitchen window
into the back yard and the brown wicker
baby carriage in which she had tucked me
three months old to lie out in the fresh air
of my first January the carriage
was shaking she said and went on shaking
and she saw I was lying there laughing
she told me about it later it was
something that reassured her in a life
in which she had lost everyone she loved
before I was born and she had just begun
to believe that she might be able to
keep me as I lay there in the winter
laughing it was what she was thinking of
later when she told me that I had been
a happy child and she must have kept that
through the gray cloud of all her days and now
out of the horn of dreams of my own life
I wake again into the laughing child


Garden Time. Canyon Press, 2016.

domingo, 7 de maio de 2017

Campo de Refugiados - Fátima Maldonado

Alguns não os víamos há anos
faziam parte da nossa mais salubre
juventude
no trabalho ainda havia escape
no amor ainda havia perigo
banquetes celebravam extorsões
compromissos sagrados aluíam
amores mais indeléveis
sucumbiam aos uivos
nas coutadas
frente à horda não havia defesa
aquele vírus jovem não cedia
pisava ameaças ignorava apelos
qualquer moderação nos parecia funesta.
(…)Os poucos resistentes engordaram
sofrem do coração bebem cerveja
têm a pasta surrada de desgostos
outros alistam-se na cave do comércio
mirram no pó as caudas abanadas
à cintura as facas do açougue,
sabujos escrevem coisas irrisórias
enquanto a terra se torna combustível.


Fátima Maldonado

segunda-feira, 1 de maio de 2017

um poema de valter hugo mãe

não procuro um amor entre os cardos,
se é entre os cardos que me vês, procura
pensar que um amor não se perde por ali
nem por ali se deve encontrar. se estou
entre os cardos, meu amor, é para te esquecer
e se me vires, pensa que é por ti, absolutamente por ti
que procuro apenas dores, apenas fardos,
para lentamente matar o meu coração. e
se me vires cair, se entretanto me vires no chão,
não me apanhes, não me ajudes, pensa que
já ninguém passeia nos cardos e que o 
amor, para castigo dos que morrem, recomeça
num outro lugar, seguramente à tua espera.
depois sorri mesmo que te seja difícil, se por
mais difícil que seja para mim ver-te sorrir
é entre os cardos que devo partir, quando
fugazmente te souber passando, tão parecida
com ires buscar a felicidade sem mim e eu
só mais uns segundos, já meus anjos preparados.

valter hugo mãe

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Travesti - Paulo da Costa Domingos

Tivemos um quarto belo como nas casas de passe
Comigo a mirar-te nua no espelho do guarda-vestidos
À socapa
Tivemos um recinto belo como o pavilhão dos furiosos
de uma clínica psiquiátrica
Os teus olhos encovados dialogavam com a morte
24 sobre 24 horas
& afinal os teus cabelos oxigenados iam deixando ver
agora a cor real
& a tua bolsa estava vazia e eu tive de voltar a pé para
casa
Mas nunca deixaste de me sorrir, mesmo do lado de lá
Dos barbitúricos


Travesti. Lisboa: &etc, 1979

sábado, 15 de abril de 2017

Conjugación Simple - Víctor Peña Dacosta

Lo mejor del pretérito imperfecto 
es su capacidad de convertir 
hechos triviales en unas memorias
interesantes o en un poemario
confesional, a medio camino entre 
las cosas que mi madre nunca supo 
y las que mis nietos deberían saber.




terça-feira, 11 de abril de 2017

And All Watched Over By Machines of Loving Grace - Niall Bourke

The open fridge is beeping, but not beeping
like an open fridge, it is beeping more like a foul
mouthed reversing truck being interviewed
before the watershed, it is beeping like a cyborg
having a fit under an airport scanner and impromptu
starts the microwave, so desperate to answer
the question oh, oh, I know, pick me, pick me,
but before I can answer, that square kid with the dirty
glass face chimes in, too hot or too cold or too something,
and when then the dishwasher pipes up with its falsetto,
(it would have to be a falsetto) the swinging fridge door
is now leading a symphony, a symphony that has been written
by your foot after your sock has fallen down below your heel
while walking back to work to get your keys,
a symphony being played by enthusiastic but very angular
people who have only ever seen the concept of music
after it has been shone through a prism by a Picasso painting
and so when the tumble dryer completes the quintet
and their crescendo breaks over me like all my cancelled bank cards
I know, oh I know for certain that we indeed are so lucky
to all be watched over by machines of such deep and loving grace.

Retirado daqui.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Um poema de Sara F. Costa - Ego

vou procurar-te em toda a extensão do meu corpo,
sei que me habitas,
sepultado algures no meu ego.
se não estás aqui, estás nas entranhas das estrelas e é igual,
é a língua de um filme que achaste medíocre por ser abstracto,
é o leque cromático da gramática
que me impinges,
são os nervos exaltados que gritam com o poema
e é o poema que grita 
e as palavras que estremecem até aos tendões.
cravo cada letra até à mais profunda solidão
e as folhas lamentam o peso das sílabas.

Retirado daqui. In Sono Extenso, 2011.

terça-feira, 21 de março de 2017

Um poema de Marta Bernardes

Ninguém sabe ao certo
Como é que o tempo caminha
Se é como a areia do deserto
Ou se é em forma de linha.

Se nos atravessa como uma flecha
Ou se nós é que o fazemos existir
Se rodopia, se abre e fecha…
Um círculo que vive a ir e a vir.

Se é como nenúfares
Que podemos saltar
Para trás e para a frente

Ou se é como o vento
Que não vemos
Mas levanta os cabelos à gente.

Marta Bernardes. Ícaro. Lisboa: Mariposa Azual, 2016.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Nó - Daniel Jonas

Do ventre da baleia ergui meu grito:
Senhor! (dizer teu nome só é bom),
Em fé, em fé o digo, mesmo com
Um coração pesado e contrito
Que és de tudo verdade e não mito,
O coração do amor, de todo o dom,
Conquanto seja raro o bem e o bom
E toda a luz aqui me falhe, és grito
Que chama toda a chama de esperança
E acorda a luz que resta à réstia eterna,
Conquanto viva o mártir na espelunca
Da vida (quem espera amiúde alcança):
Possa o nazireu preso na cisterna
Sofrer de ser só tarde mas não nunca. 


Daniel Jonas. . Assírio & Alvim, 2015.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A poem by Rebecca Watts

Now it’s autumn
and another year in which I could leave you
is a slowly sinking ship.

The air has developed edges
and I am preparing to let myself lie
in a curtained apartment,

safe in the knowledge that strangers
have ceased to gather and laugh
in the lane below

and the brazen meadow no longer
presumes to press its face to the window
like an inquisitor.

Soon even the river will evince a thicker skin,
my breath each morning will flower white,
and all of summer’s schemes will fly like cuckoos.

The leaves are turning and the trees
are shaking them off. Bonfire smoke
between us like a promise lingers.

Retirado daqui. Do livro The Met Office Advises Caution. Carcanet Press, 2016.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Save as Draft - Joel M. Toledo

Or write as poem. The whole point is often
what we miss out on. To revise is to reconsider
the experience of, say, a leaf - never mind
that is not green anymore. Or, pardon the sudden
evening. The transition was nice enough;
the explosive colors of dusk. And, didn't you feel
so much sadness? I cannot explain it any better
than how I could when the outlines were still there:
tress and some wonderful new shapes. 
Since then, things have changed. A pale hand
moves in the darkness. And someone is calling out,
come to bed, come to bed. And it is just you.
The evening insists on evening. It is that simple. 
It is late enough as it is.

Retirado daqui: http://www.softblow.org/toledo.html

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

o mar em chamas

todos os livros que leio me falam da tua morte
mas não se pode acreditar em tudo o que se lê
e sabendo embora que a tristeza não existe
não posso deixar de me sentar com a cara apoiada numa das mãos

a vida é uma doença de que alguns se curaram
passo os dias sentado num café à distância
e entre mim e mim existe já uma intimidade insuportável
(como dar de novo ouvidos aos meus mestres de outrora?)

fui dos que julgaram ter nascido para tornar grande o mundo
mas atrasei-me de propósito num quarto cheio de homens
- procuro perceber que é o tempo que me cabe -

uma noite fui visto a lançar fogo ao mar

Bernardo Pinto de Almeida. e outros poemas. Quetzal, 2002.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

NEIGHBORHOODS - Bruna Beber

se o mundo não fosse
esse aterro de
máquinas
barbas
pilhas

débitos
prazos
e canetas
marca-texto

medos
dúvidas
e embalagens
tetrapak

se o mundo não fosse
um aterro de babacas
ou se o mundo não fosse
um abrangente 
e resumindo
aterro de sinônimos

e se essa rua
se essa rua
fosse tua
eu ia me mudar para lá.

Bruna Beber. balés. Lingua Geral, 2009.