terça-feira, 12 de setembro de 2017

Deslumbre

Os anos ensinaram-me que a vida é o caminho percorrido; a angústia é a ilusão de terem existido outras possibilidades. Quando entramos na adolescência, é quando se constrói essa ilusão. É, como se de um momento para o outro, uma vasta ignorância fosse abalada por um sismo de grande intensidade e os muros caíssem, revelando inúmeros caminhos. Mas na verdade ainda somos crianças; a consciência de nós é vaga, se não rara. Quando damos por isso, estamos a arder de desejo, de cobiça, de ressentimento, de raiva. 

João Tordo. O Deslumbre de Cecilia Fluss. Lisboa: Companhia das Letras, 2017.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Calotes Suspensas - Rosalina Marshall

numa cama
enquanto lá fora chilreavam pássaros
coloquei os dedos na jugular
precipício
sobre um jardim
onde nunca mais
se teme a morte


Manucure, Companhia das Ilhas, 2013.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Peleas Domésticas - Frank Baéz

Mientras escribo en el papel
a las tres de la mañana
una musa me escupe la cara
otra musa me grita
una me trae vodka
y me susurra no escribas
me trae drogas
me trae modelos de revistas
no escribas no escribas
repiten al unísono
día y noche
noche y día.


Frank Baéz

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Geoffrey Hill - Love

XXXV 

Even now, I tell myself, there is a language   
to which I might speak and which 
would rightly hear me; 
responding with eloquence; in its turn,   
negotiating sense without insult 
given or injury taken. 
Familiar to those who already know it   
elsewhere as justice, 
it is met also in the form of silence. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Twitter Fiction

Geoff Dyer

I know I said that if I lived to 100 I'd not regret what happened last night. But I woke up this morning and a century had passed. Sorry.

James Meek

He said he was leaving her. "But I love you," she said. "I know," he said. "Thanks. It's what gave me the strength to love somebody else."

AM Homes

Sometimes we wonder why sorrow so heavy when happiness is like helium.

Retirado daqui.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Prefácio Sumário - Ricardo Domeneck

Não sou pago para ajudá-la

ainda que nunca esteja em bai-

xa o mercado das ilusões- Este é um livro

de auto-estorvo. Para bom entendedor. buraco de

O é letra. O abismo não tem olhos. Foque-se. O

cosmo vira a cara para as cenas constrangedoras

deste planeta que está, já sabemos, na periferia da

galáxia. Os seus dramas de subúrbio e já deve-

ria estar claro e evidente, querida, que os

deuses estão cagando e andando.

Ricardo Domeneck. Manual para Melodrama. Lisboa: Douda Correria, 2016.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Nadar na piscina dos pequenos - Golgona Anghel

Hoje, vieram buscar-me cedo.
É a tal história, tiram-me do sono,
passam-me para a maca e 
ninguém quer saber das minhas vontades.
Nem fui fazer chichi, nem me fizeram o buço.
Estou com o bordado da fronha estampado nas fuças
e, com este péssimo aspecto,
fazem-me desfilar pelos corredores cheios de gente
que acorda de madrugada
e se põe bonita para vir aqui tirar fotografias
a rins e pulmões. 
Fora a vadiagem que só entra para aquecer os pés,
estou eu, feita bicho, amarrada a uma etiqueta,
como os cavalos na feira.
Por isso, puxo com os dois braços
uma fralda que encontro por perto
e enxugo o meu rosto pejado de medo,
porque tudo isto é uma merda,
mas depois melhora um pouco
quando me enchem de morfina
e me devolvem, à saída, o telemóvel.

Nadar na Piscina dos Pequenos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2017.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Elegia cor-de-rosa - David Teles Pereira

Sou filho daqueles que lutaram no dia 25 de Abril de 1974
para que hoje eu possa ficar em casa, aborrecido, a escrever
sobre aquilo que nunca vou ser.
Não sou heróico ou talvez o seja ao meu estilo.
Sou tragicómico, sou tremendamente sensacionalista,
posso ser comprado em qualquer esquina mais ou menos escura
desta cidade de vórtices florescentes que não me viu nascer.
Sou ideologicamente marxista, muito embora nunca tenha lido Das Kapital,
muito embora todos os pares de calças que dispo a troco de algum carinho
custem muito mais que uma noite média de amor.
Não sou como Janus, mas tenho uma máscara de múltiplas faces,
pela pura diversão de iludir quem se deita ao meu lado.
E às vezes tudo isto me faz chorar lágrimas tão fáceis
de suportar como diamantes brilhantes ao pescoço de jovens
nunca tão belas quanto eu. Mas a beleza é difícil.
Sou como Eco que foi a primeira infeliz a sofrer de anorexia
por motivos amorosos. Safo não tinha razão.
Ninguém no futuro há-de pensar em mim.
Sou uma maçã madura que caiu longe da árvore.
Ainda assim, trinca-me.
O único caminho para o meu coração começa no centro
da minha boca. E, como é natural, sou sexualmente ambíguo.
Sou a parte escura de mim e é ela que brilha incomparavelmente
mais que um dia de Verão.
A solidão do meu amor é uma mecânica erótica
que reproduz em vinte e nove espasmos o óbito celestial.
Tenho as costas arranhadas e orgulho-me.
Investi nisso com as unhas afiadas e pintadas de preto.
Sou o meu próprio Basilisco quando me olho ao espelho,
quando respiro no espelho uma linha tão natural como uma árvore.
Sou a metade da romã que Perséfone comeu,
ou seja, um campo onde só nascem flores de pétalas negras.
Não procura nada quando saio de casa.
No entanto, espero que haja alguém capaz
de me aliviar da enorme tragédia do meu sonho.
Como Alexandre da Macedónia cometi o erro
de contemplar todo o meu Império demasiado cedo.
Diz-se que ele só sorriu quando Aristóteles deixou
de lhe corrigir a postura no cavalo.
Mas eu estou a sorrir mais do que nunca.
Quase três mil anos depois
Já ninguém me pode ensinar a forma unânime e
democrática de roubar a virgindade a adolescentes
que, à falta de melhor, se consideram criadores de um
verbo poético capaz de todos os sentidos.
Sou nuclear, irregular, pornográfico, luminosamente imoral.
Sou uma princesa enfadonha, demasiado esquizofrénica
para aparecer na capa das revistas. Mas eu apareço na capa
das revistas e faço-o sempre com tanta mediocridade
que nunca houve nem haverá alguém igual a mim.
Não tenho egrégios avós. Escrevo esta nova bíblia
para quem quer que seja: góticos, vegetarianos, praticantes da Cabala
sejam ou não assumidos, modelos esqueléticas,
adoradores de deuses de carne, escritores viciados em MD,
actrizes lindíssimas em reabilitação,
freiras prontinhas a assumir a aparição de Jesus Cristo entre as minhas pernas
… tanto me faz.
Eu vi CSS no Lux dia 4 de Abril de 2007 com os lábios pálidos e quietos,
como quem pretende passar a imagem de que é
demasiado irreverente para se deixar absorver pela música.
O meu sangue é da cor deste poema e este poema é um anjo neutro.
Ninguém me acompanharia ao Père Lachaise para depositar
folhas mal esquecidas no cimo da campo do poeta.
Sou o processador de textos mais ilógico da minha geração,
talvez seja o único que o faça, parente pederasta
de todos aqueles que não conseguiram fazer mais do que adaptar
Portugal ao federalismo do consumo literário.
Lá em Lisboa, lá em Lisboa tudo o que fiz foi morrer.
Nunca passou pela minha cabeça que esta cidade, tal sereia,
pudesse convencer tantos a afogarem-se nas profundezas do rio.
Não sei se hei de parar no inferno só para beber uma cerveja
ou ficar por lá uma temporada.
Só por vaidade pus o nome de Salomé à minha gata
que pariu um gato anónimo e morto.
Não tenho outra ilusão que acordar. À parte isso,
tenho em mim todos os sonhos eróticos deste mundo.
Sei de uma música que acalma as aves. Só não sei
Como tocá-la. Não faz mal, sou demasiado revolucionário
e agitador para me preocupar com isso.
Sou moderno e o mesmo é dizer que morri muito antes de ter nascido.
Rilke devia estar a pensar em mim quando escreveu
Que todo o Anjo é terrível.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

George Romero (1940-2017)

Un Sueño - Jorge Luis Borges

En un desierto lugar del Irán hay una no muy alta torre de piedra, sin puerta ni ventana. En la única habitación (cuyo piso es de tierra y que tiene la forma de círculo) hay una mesa de maderas y un banco. En esa celda circular, un hombre que se parece a mi escribe en caracteres que no comprendo un largo poema sobre un hombre que en otra celda circular escribe un poema sobre un hombre que en otra celda circular...El proceso no tiene fin y nadie podrá leer lo que los prisioneros escriben.

Jorge Luis Borges

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ai - Mexico, 1940

At noon today, I woke from a nightmare:   
my friend Jacques ran toward me with an ax,   
as I stepped from the train in Alma-Ata.
He was dressed in yellow satin pants and shirt.   
A marigold in winter.
When I held out my arms to embrace him,   
he raised the ax and struck me at the neck,   
my head fell to one side, hanging only by skin.   
A river of sighs poured from the cut.

Ai (1947-2010)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Dentro do Meu Peito Você Pode Cultivar a Solidão o Ano Inteiro - Diego Moraes

Lembro que uma senhora trabalhava na minha casa e orava muito. Ela cozinhava orando e às vezes varria a casa lagrimando. Dona Lígia. Nunca esqueço o rosto da dona Lígia. Um rosto de compadecimento com o sofrimento alheio. Uma expressão cansada de esperança num mundo melhor. Eu liguei a televisão. e vi o avião acertando a primeira torre e depois outro detonando a segunda. Ela se ajoelhou de cara pra parede e começou a chorar. Começou a pronunciar palavras em línguas estranhas. Fiquei calado. Acho que a fé da dona Lígia me deixava sem palavras. Sem ter o que dizer. Todos os canais de noticias temiam uma terceira guerra mundial e resolvi me trancar e orar também. Não me ajoelhei. Sentei a bunda na beira da cama e comecei a visualizar com força um mundo melhor. O tempo passou. […]

Diego Moraes. Dentro do Meu Peito Você Pode Cultivar a Solidão o Ano Inteiro. Lisboa: Douda Correria, 2017. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Flores - Daniel Jonas



I

Tudo isto me parece terrível.
Todas estas flores de que não sei o nome
parecendo trepar pelo ar, suspensas no equilíbrio de Satã,
deformadas, varicosas, impudentes,
cacarejando na noite.
Eu, acoitado, encarando-as à meia-noite,
figuras espectrais, abortivas,
viciosas a cada centímetro do seu talo.
A flora demencial que neste pátio assoma
interpela-me, alguma coisa tem comigo.
Só a tosse, súbita, de dentro me encoraja
atravessando a janela do quarto.
São estilhaços da voz amada,
meu emblema contra a raiva fria
de todos os dias e deste ainda,
um escudo santo
contra as invectivas de Lúcifer.

Que todos me desamparassem
não o choram estas estranhas, antes
rubricam tortuosas como epicentros
do galo.
Não poderei ir atrás do tempo
por entre os meus dedos escoado:
cada dedo pelo menos um remorso maior
no meu ábaco de angústia.

O que estas flores e estas folhas me dizem
é ainda outra coisa. Nas suas saias de varas
um modo de se estar preso
na contrição inapelável do fait accompli.
São ainda exosqueletos, a artrite ágil
disseminada, dessedentada.

Lá mais ao longe espanta-espíritos
pascem: o rebanho de Satã,
uma nuvem de dúcteis trevas,
fantasmas combalidos
de cordeiros
arrancados ao Pai.
Agora estes são cajados:
forma torpe de sede.

II

Esperastes-me, flores.
Insaciáveis mas pacientes
como alguém sabendo-se intocado
pelo falso avanço do tempo,
indómitas nos vossos nervos secos
dispersando-se apenas ilusoriamente
para tentaculares permanecerdes irrepreensíveis
na ilusão imóvel da vossa depredação.
Mostrais-vos superadoras
do mais ínfimo estado
com os vossos nódulos frios
e a vossa água paralisada.

À distância
o cerro invário,
o badalo da devastação da música,
todas estas não caducas sombras.
Esta espera não me servirá.
Os meus dias diante de mim inúteis.
A minha bela criança dorme
a meu desfavor.

Daniel Jonas. Bisonte. Lisboa: Assírio & Alvim, 2016.